O
remoto lugar na Terra para onde os satélites são enviados para 'morrer'
David Whitehouse*
Escritor e astrônomo
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A estação Tiangong-1
voltará à Terra em 2018, mas ainda não se sabe exatamente onde irá cair | Foto:
Engenharia espacial chinesa.
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A estação espacial chinesa
Tiangong-1 está, atualmente, fora de controle.
Espera-se que ela caia na Terra
em algum momento do ano que vem, mas não exatamente no local onde outros
módulos espaciais terminam seus dias.
Exploradores e aventureiros,
em geral, gostam de procurar novos lugares para conquistar, já que os picos
mais altos já foram escalados, os polos foram alcançados e os vastos oceanos e
desertos já foram atravessados.
Alguns desses lugares são
chamados polos de inacessibilidade.
Dois deles são especialmente
interessantes.
Um é o polo continental de inacessibilidade - o local na Terra
mais longe do oceano.
Existe uma discussão sobre sua posição exata, mas para
muitos ele fica próximo ao chamado Passo de Alataw - uma passagem montanhosa na
fronteira entre a China e o Cazaquistão.
O ponto equivalente no
oceano - aquele que fica mais afastado de qualquer território em terra - fica
no sul do Pacífico, cerca de 2.700 km ao sul das Ilhas Pitcairn - em algum
lugar na "terra de ninguém" entre a Austrália, a Nova Zelândia e a
América do Sul.
Este polo de
inacessibilidade oceânico não atrai apenas o interesse de exploradores -
operadores de satélite também se interessam por ele.
Com o fim da vida útil de
satélites e espaçonaves atualmente em órbita ao redor da Terra, a grande
maioria destes artefatos irão voltar em algum momento.
Mas, onde cairão?
Satélites menores geralmente
se incendeiam ao entrar na atmosfera terrestre, porém alguns pedaços dos
maiores conseguem sobreviver ao atrito e se chocam com o solo.
Para evitar que
caiam em áreas populosas, eles costumam ser conduzidos para a área em torno do
ponto de inacessibilidade oceânica.
Uma área que se estende por
aproximadamente 1.500 km² no leito oceânico está, aos poucos, sendo
transformada num verdadeiro cemitério de espaçonaves construídas pelo homem.
Na
última contagem havia mais de 260 delas, a maioria russas.
Os destroços da estação
espacial Mir, por exemplo, estão lá.
Ela foi lançada ao espaço em 1986 e
recebeu diversos cosmonautas russos e visitantes de várias nacionalidades.
Com uma massa de 120
toneladas, a estação não conseguiria queimar completamente na atmosfera.
Por
isso, ela foi direcionada à região em 2001, e chegou a ser vista por alguns
pescadores locais como uma bola de destroços brilhantes se desintegrando
enquanto percorria o céu.
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Quando reentrou na
atmosfera terrestre, em 2001, a estação espacial russa Mir se desintegrou quase
completamente, mas alguns pedaços foram para o polo oceânico | Foto: Getty
Images.
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Controle
Ao retornar à Terra, o
módulo que leva suprimentos para a Estação Espacial Internacional (ISS, na
sigla em inglês) entra em combustão nessa região, incinerando também o lixo que
traz da Estação.
Esta desintegração
controlada de satélites e módulos espaciais em nossa atmosfera não causa perigo
para ninguém.
A região desse polo de
inacessibilidade também não costuma ser frequentada por pescadores, porque as
correntes oceânicas não passam pela área e, portanto, não levam nutrientes para
lá, o que torna escassa a vida marinha no local.
Uma das futuras habitantes
deste ponto isolado será a própria Estação Espacial Internacional.
Os planos atuais são de que
ela seja desativada na próxima década e seja conduzida para o polo oceânico de
inacessibilidade.
Com uma massa de 450 toneladas - quatro vezes maior do que a
da estação russa Mir - sua volta à Terra provavelmente será um acontecimento espetacular.
No entanto, nem sempre é
possível conduzir um satélite ou estação espacial para o sul do oceano
Pacífico, pois os controladores podem perder contato com ele.
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A Terra é circundada
por milhares de pedaços de lixo espacial, como satélites e módulos desativados
| Foto: NASA.
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Foi exatamente isso o que
aconteceu com a estação espacial Salyut 7, em 1991, que caiu na América do Sul,
e também com a Skylab, primeira estação espacial americana, que atingiu a
Austrália em 1979.
Ninguém foi ferido e, até onde se sabe, ninguém jamais foi
atingido por algum pedaço de um módulo espacial desativado.
No ano que vem, este
problema se repetirá.
Entre os meses de janeiro e abril, a estação chinesa
Tiangong-1 voltará à Terra, em sua última viagem.
Ela foi lançada em 2011, como
a primeira estação espacial da China.
No ano seguinte, recebeu a visita da
primeira mulher astronauta chinesa, Liu Yang.
A órbita da Tiangong-1 vem
declinando à medida que ela se aproxima do ponto de reentrada na atmosfera
terrestre.
Mas, os engenheiros chineses perderam o controle de sua trajetória e
não estão conseguindo ligar seus propulsores para guiá-la até o Pacífico Sul.
Com isso, calculam que a
estação cairá na Terra em algum local entre as latitudes do norte da Espanha e
o sul da Austrália.
Não será possível ter uma localização mais precisa de sua
queda até poucas horas antes da Tiangong-1 entrar em combustão.
Mas o mais provável é que
ela não se junte a suas companheiras no "cemitério de satélites".
*David Whitehouse foi
correspondente de ciência da BBC de 1988 até 2006, editor de ciência do site da
BBC News.
post - Marcelo Ferla
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