MARILYN NO DIVÃ.
POR
VITOR DIRAMI
Um
artigo caótico e perturbador como uma sessão de psicanálise, as gravações de um
filme ou apenas como o coração de uma mulher. Como o coração de Norma Jeane, a
mulher por detrás do mito Marilyn Monroe. Cinquenta anos depois.
p.s - este texto fora publicado na data de aniversário de 50 anos de morte da atriz.
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Marilyn
fotografada por Alfred Eisenstaedt, 1953.
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Durante muitos anos - e
até hoje - grafaram (erroneamente) o nome Norma Jean como a verdadeira
identidade de Marilyn Monroe. Na verdade, ela se chamava Norma Jeane Mortenson
e não Norma Jean.
Desde criança, quiseram fazê-la crer que se chamava Norma
Jean em homenagem a diva Jean Harlow - a mãe de todas as loiras, de quem Norma
foi fã por toda vida.
Ela era seu grande ídolo, se inspirava em Harlow e
baseava sua própria vida na triste história de Harlow, quase obsessivamente.
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Marilyn
na praia de Amagansett, fotografada por Sam Shaw, 1957.
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Norma nunca conheceu seu
pai, ou como especulam, talvez ela tenha sido rejeitada por ele. Ela não foi um
bebê bem-vindo, sua mãe, Gladys Baker, não tinha condições de cuidar e
sustentar um bebê. Seus avós paternos morreram enlouquecidos e a loucura não
demorou a acometer a mãe de Norma Jeane.
Desde tenra idade ela viveu abrigada
na casa de Ida e Albert Bolender, um casal que cuidava de várias crianças que
por alguma razão não tinham um lar; Norma era uma dessas.
Ela viveu na casa dos
Bolender até os 7 anos, quando Gladys a levou embora à força para viver junto
dela; o que podia ter sido um belo recomeço para mãe e filha, foi infelizmente
interrompido quando a sanidade mental de Gladys começou a dar sinais de
fraqueza.
Em 1933, após vários episódios traumáticos ela acabou sendo internada
em uma clínica psiquiátrica com o diagnóstico de esquizofrenia. Gladys nunca
mais voltou a ser a mesma d'antes.
Até ali, a menina Norma
Jeane já vivera experiências dolorosas demais para uma criança. Ela não sabia
quem era o seu pai, e já sentia a rejeição da mãe.
Mesmo enquanto morava na
casa dos Bolender, Ida não permitia que Norma a chamasse de mãe, já que sua
verdadeira mãe estava viva - mesmo que parecesse o contrário.
Gladys vivia
distanciada da filha, não a procurava e a visitava poucas vezes. Os abandonos,
rejeições, mudanças e sofrimentos que eram implicados a Norma Jeane, acabaram
criando cicatrizes profundas na alma da menina, feridas que nunca fecharam e a
marcaram para sempre.
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Marilyn
na praia de Santa Monica fotografada por George Barris, 1962.
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Marilyn
fotografada por Milton Greene, 1955.
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Ela nunca teve algo que se
possa chamar de 'lar tradicional', nunca teve uma casa com pais e que
pertencesse a ela, e que ela pertencesse aquele lar.
Do fim da infância ao
começo da idade adulta, ela viveu em diversas casas de parentes distantes e
famílias de criação, incluindo uma passagem pelo orfanato Los Angeles Orphans
Home, um dos maiores traumas de sua vida.
Sua guardiã Grace Mckee, que era
melhor amiga de sua mãe, a deixara no orfanato em 1935, porque se casara e iria
construir uma família em que não havia espaço para Norma Jeane (muitas famílias
se interessaram em adotá-la, incluindo o casal Bolender, mas Grace McKee sempre
rejeitava as propostas. Imaginem o quão triste é a vida de uma criança num
orfanato, a sensação de abandono e solidão. Ainda mais para uma menina que
tinha uma mãe.
Anos depois, já como Marilyn Monroe, ela declarou que não
entendia o que fazia no orfanato, porque não era órfã, porque tinha mãe.
Quando alguns anos depois
se eternizou gravando suas mãos e pés no cimento da calçada da fama do
Grauman's Chinese Theater, em Los Angeles, nada mais poderia lhe parecer
impossível. Ela havia sonhado com aquilo durante toda sua infância. Sempre lhe
disseram que seria uma estrela. Quando criança, Grace McKee a levava aos
cinemas de Hollywood Boulevard para ver as estreias das grandes estrelas, e lhe
dizia que um dia ela estaria ali, seria a sua vez de estrear.
A menininha Norma
Jeane tentava encaixar seus pequenos pezinhos nas pegadas das grandes divas. Um
dia seria a sua vez de gravar suas pegadas. E quando ela deixou suas marcas em
1953, ao lado da morena Jane Russell, teve o seu sonho realizado, felizmente
desta vez não tinham mentido para ela.
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Marilyn,
ainda Norma Jeane, fotografada por André de Dienes, 1946.
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Marilyn
tomando aulas de dança, 1949.
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No fim dos anos 40,
Hollywood era abarrotada de espertalhões metidos a agentes e produtores,
chamados de woolfs (lobos). Mau-caráteres que se aproveitavam e abusavam das
jovens starlets pretendentes a estrelas, também abundantes naquela época.
O
maior exemplo disso é o macabro episódio de Dália Negra, ocorrido em 1948.
Norma Jeane sabia bem disso.
Vendia-se de tudo aos lobos, aos fotógrafos e aos
produtores.
O corpo, a imagem, por uma figuração ou por um papel qualquer numa
próxima produção dos estúdios.
O sexo era moeda de troca e o mercado era
sórdido, cruel, nada glamouroso.
O ambiente era triste, frio e solitário.
Jogava-se com o que se tinha a oferecer, e comprava-se de tudo pelo sucesso.
Nesta época, Norma Jeane
ganhava pouco e tinha de viver como podia. Ela alternava os dias entre aulas de
dança, canto e teatro, mas ainda estava longe de se tornar uma estrela, só
fazia figurações ou 'pontas' em pequenas produções sem grande destaque.
O
salário pago pela 20th Century Fox era baixo, e volta a meia ela tinha que
voltar a modelar para complementar a renda.
A vida era difícil, cara e muito
solitária.
A corrida ao estrelato era diária, dura e cansativa, conseguir um
papel de destaque era tarefa difícil. Norma se mudava constantemente de
apartamento, conforme o valor do aluguel subia ou aumentava. Em 1949 sua
situação era tão tensa e instável que ela aceitou posar nua para o fotógrafo
Tom Kelley só para não perder o carro comprado a crédito.
O preço: 50 dólares.
As fotos eram para um calendário, e ela já temendo que viessem destruir sua
carreira, exigiu sigilo e preferiu assinar como Mona Monroe.
Em 1953, quando já
atingira a fama e o sucesso, as fotos voltaram à tona, desta vez como sendo da
grande estrela Marilyn Monroe.
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Marilyn
fotografada por Ed Clark, 1950.
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Marilyn
fotografada por Tom Kelley, 1949.
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Entre 1949 e 1952, ela
alcançou o estrelato se destacando em diversas produções, tendo participado dos
clássicos A Malvada (All About Eve) e O Segredo das Jóias (The Asfalt Jungle) -
ambos em 1950. Em 1952 ela teve sua primeira - e uma das poucas - chances de
mostrar seu talento dramático, como protagonista do longa Almas Desesperadas
(Don't Bother to Knock), no qual interpretou uma babá psicótica. Qualquer
semelhança com fatos reais seria mera coincidência?
Até ali, Marilyn já tinha
alcançado o sucesso, e era a mais promissora atriz de Hollywood.
Seu bom
desempenho no drama Almas Desesperadas e a popularidade adquirida levaram a
20th Century Fox a investir pesado nela e nos três filmes de 1953 que a consolidaram
como o maior ícone do cinema dos anos 50.
Diferente do seus personagens
habituais, no melodramático film noir Torrentes de Paixão (Niagara) - o
primeiro dos três clássicos de 1953, ela interpretou Rose Loomis, uma femme
fatale sedutora e irresistível.
Não é uma de suas melhores atuações, mas ela
está no auge da beleza e brilhando num papel altamente sexy, transpirando
sensualidade.
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Marilyn
fotografada por Willy Rizzo, 1962.
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Marilyn
fotografada por Alfred Eisenstaedt, 1953.
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Marilyn sempre se esforçou
para ser uma boa atriz, esse era o seu maior desejo. Ela estudou arduamente
para ser uma boa atriz. Queria ser reconhecida, respeitada e aplaudida.
"Meu trabalho é a única fundação que eu tenho para me sustentar. Eu me
sinto como uma superestrutura sem fundações - mas eu estou trabalhando
nelas".
Marilyn é um verdadeiro de exemplo de atriz, de como uma atriz
deve ser.
Ela entendia a verdadeira essência da profissão e do que é o trabalho
de um ator.
"Uma atriz não é uma máquina, mas eles tratam você como uma
máquina. Uma máquina de dinheiro".
E dedicou-se plenamente a esse intento.
Teve aulas durante anos com Natasha Lytess, uma das melhores coaches de
Hollywood, que exercia uma estranha e possessiva dominação sobre ela, e a
acompanhou em inúmeros filmes, incluindo seus maiores êxitos como Os Homens
Preferem as Louras (Gentlemen Prefer Blondes) e Como Agarrar um Milionário (How
to Marry a Millionaire). Sua atuação um tanto afetada, cheia de maneirismos e
expressões faciais baseadas nas atuações do cinema mudo fizeram dela uma grande
comediante.
Billy Wilder a definiu como um gênio na comédia - e de fato ela era,
mas é difícil até ser uma boa comediante quando se interpreta sempre a mesma
loira burra em todos os filmes.
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Marilyn
e Joe DiMaggio no dia do seu casamento, 1954.
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Marilyn
e soldados norte-americanos na Coreia, 1954.
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Em 1955, Marilyn ingressou
no Actor's Studio de Lee Strasberg. A famosa escola de atuação nova-iorquina
onde também estudou Marlon Brando.
Pouco tempo antes, ela tinha tomado aulas de
atuação com Constance Collier, veterano do cinema mudo, então com 77 anos e que
viria a morrer pouco tempo depois. No Actor's Studio, Marilyn estava obstinada
em mudar os rumos de sua carreira e se tornar uma atriz dramática devidamente
reconhecida.
Para isso, tornou-se adepta do "método de imersão" de
Constantin Stanislavski, de quem Lee Strasberg era o maior discípulo.
O
controverso método consiste em extrair dos próprios atores as emoções e
pensamentos de seus personagens, visando criar uma interpretação mais realista
o possível, isso inclui buscar os sentimentos mais tristes e profundos,
utilizando da memória sensorial e afetiva.
Marilyn era muito estudiosa e muita
sincera com os estudos, gostava de se sentar na última fileira da classe para
não chamar a atenção dos outros para si mesma. Ela passou todo o ano de 1955 em
Nova Iorque tendo aulas no Actor's Studio, e quando Lee Strasberg achou que ela
já estava preparada para dar uma performance na frente dos outros, Monroe
escolheu a cena de abertura da peça Anna Christie de Eugene O'Neill, ganhadora
do prêmio Pulitzer de 1922.
A peça foi levada ao cinema em 1930 no primeiro
filme falado de Greta Garbo no papel título (Marilyn era uma grande fã de
Garbo), e rendou-lhe sua primeira indicação ao Oscar de Melhor Atriz. Os outros
alunos foram desencorajados a aplaudir, mas a performance de Marilyn foi tão
natural que resultou em aplausos espontâneos.

Marilyn no hotel
Ambassador, Nova Iorque, 1955.
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Marilyn fotografada por
Eve Arnold lendo Ulisses, 1954.
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Em 1956, Marilyn foi à
Londres para filmar O Príncipe Encantado (The Prince and the Showgirl) com Laurence
Olivier, tido como o maior ator shakespeariano, marido de Vivien Leigh e que
também era responsável pela direção do filme.
O Príncipe Encantado foi seu
único filme fora de Hollywood e a primeira produção da Marilyn Monroe
Productions. Sim, exatamente.
Marilyn criou uma produtora independente para
poder tocar seus próprios projetos e não ter de ficar refém dos papéis
abobalhados que ela não suportava mais. Produzido em associação com a Warner
Bros. o filme foi unanimente elogiado pela crítica europeia e rendeu à Monroe o
David di Donatello - a maior honraria do cinema italiano, equivalente ao Oscar
- por sua performance, e uma nomeação ao BAFTA de Melhor Atriz Estrangeira.
No
filme, ela engole totalmente o grandioso Olivier, no papel de uma corista, e
ele no de príncipe regente de um país fictício. A comédia romântica se
desenrola em um delicioso jogo de gato e rato para ver quem vai conquistar
quem.
Este é o filme em que ela mais se assemelha a sua figura original, sua
voz e seus cabelos são os mais próximos do natural e sua atuação é
deliciosamente espontânea.
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Marilyn
fotografada por Ed Feingersh em frente a loja de Elizabeth Arden em Nova
Iorque, 1955.
Marilyn era muito
inteligente. Por trás do falso personagem criado pela mídia, pelo estúdio e até
por ela mesma, havia uma mulher capaz, íntegra, honesta e elegante. Apreciava
boa leitura, principalmente Dostoiévski, Franz Kafka, Vladimir Nabokov,
Beckett, Bernard Shaw e também Jack Kerouac. Um de seus livros prediletos era
Ulisses de James Joyce.
Sua peça de teatro predileta era Um Bonde Chamado
Desejo de Tennessee Williams. Também apreciava Goya, Michelangelo, Picasso,
Degas e Botticelli.
Seu perfume preferido era Chanel Nº5 e os cosméticos de
Elizabeth Arden agradavam-lhe bastante. Nutria um bom gosto excepcional para o
vestuário; fora dos figurinos extravagantes e luxuosos dos filmes, ela sempre
optou por vestidos de mangas longas e decotes discretos. Não gostava de se
exibir e mostrar o corpo. Nunca gostou de ser o centro das atenções e chamar
atenção pelos atributos físicos.
Marilyn também tinha certo
engajamento político e social.
"O que eu realmente quero dizer: que o
mundo realmente precisa de um sentimento de parentesco. Todos: estrelas,
operários, negros, judeus, árabes. Nós somos todos irmãos. Por favor, não faça de
mim uma piada. Termine a entrevista com o que eu acredito".
Um fato quase
desconhecido, é que Marilyn chegou a ajudar Ella Fitzgerald em sua carreira. O
Mocambo Nightclub era uma das boates mais famosas de Los Angeles nos anos 50 e
não aceitava cantores negros.
A própria Marilyn interviu pessoalmente junto ao
dono da casa usando de seu status perante a imprensa e exigindo Ella Fitzgerald
como atração do clube.
Em troca, ela estaria lá todas as noites na mesa da
frente.
E assim foi, Ella conta que depois disso nunca mais precisou cantar em
um clube pequeno de jazz.
"Ela era uma mulher incomum, um pouco à frente
de seu tempo. E ela não sabia disso".
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Marilyn teve uma longa
experiência com a psicanálise.
Ela começou a se consultar com a doutora
Margaret Hohenberg por influência de Lee Strasberg, que achava que o tratamento
ajudaria na exploração de suas emoções e consequentemente, no seu processo de
amadurecimento como atriz no Actor's Studio. Foi a partir daí que ela começou a
dar voz às vozes.
Nunca mais foi a mesma.
Grande parte dos problemas de Marilyn
eram consequência da psicanálise. De 1955 a 1962 ela deitou sobre o divã de 5
psicanalistas. Chegou a se consultar com Anna Freud, filha do próprio pai da
psicanálise, que a atendeu quando estava na Inglaterra filmando O Príncipe
Encantado.
Marilyn acabou desenvolvendo uma bizarra dependência e obsessão por
psicanálise, consumindo tudo o que pudesse sobre o assunto, ela demonstrava um
conhecimento gigantesco para alguém que não era profissional.
Sua dependência
era tão grande que ela não conseguia mais sequer gravar sem a ausência de sua
psiquiatra. Tinha crises de ansiedade, paranoia, medo.
Faltava dias ao
trabalho. Esquecia os textos e paralisava toda a produção, já que a estrela
nunca estava pronta para gravar. Ao longo dos anos, a situação foi galgando
níveis absurdos até que Marilyn simplesmente não conseguia mais filmar.
A psicanálise é uma ciência
perigosa.
Vai à fundo nas memórias mais dolorosas e sofridas na tentativa de
extrair o "problema". Os tratamentos são sempre longos e exaustivos e
não se sabe certamente qual cura se busca.
No caso de Marilyn, talvez a
psicanálise tenha sido mesmo desastrosa. Ela não conseguia mais se libertar dos
sofrimentos emergidos, passou a viver enclausurada entre suas memórias
trágicas, numa atmosfera completamente dark. Seu estado de espírito era o pior
possível, lamentável. Nada podia parecer reerguê-la. Mas talvez, ela tivesse a
certeza de que seria curada pela psicanálise.


O último ano de vida de
Marilyn Monroe foi tormentoso.
Ela não conseguia mais equilibrar a vida.
Sua
saúde estava cada vez mais debilitada e sua instabilidade mental se acentuava a
cada dia.
Compareceu a cerimônia do Globo de Ouro em 05/03/1962, onde ganhou a
estatueta na categoria de Atriz Favorita do Mundo Durante o Ano de 1961.
Estava
completamente bêbada, distribuindo gargalhadas na companhia de seu amante
mexicano José Bolaños. Vestia um vestido verde de paetês que deixava suas
costas nuas, exibindo sua magreza exagerada.
Para todos, ela estava acabada e o
fim estava próximo.

Em 19 de maio de 1962, Ela
voou até Nova Iorque para encenar seu último ato no baile de gala pelo
aniversário do presidente John F. Kennedy, onde cantaria Happy Birthday. Monroe
parecia ter ensaiado a vida inteira para aquilo, e de fato tinha. Pagou 5.000
ou 12.000 dólares ao figurinista ganhador do Oscar Jean Louis para lhe fazer o
vestido que só Marilyn Monroe pudesse usar.
O vestido justíssimo e coberto de
pedrarias a fez resplandecer assim que pisou no palco, parecia estar nua, mas
nunca esteve tão bela.
Ela se preparou para cantar Happy Birthday da maneira
mais sensual e provocante que podia. Era tudo proposital, cada palavra da sua
boca parecia transpirar sexualidade, doçura e prazer.
Quando ela entrou no
palco do Madison Square Garden estava atrasada, ela vivia atrasada, estava
sempre atrasada. Peter Lawford, cunhado do presidente e mestre de cerimônias a
anunciou como "the late Marilyn Monroe" - em inglês late quer dizer
'atrasada', mas também significa 'falecida'.
Era o último ato.

Para cantar no baile do
presidente em Nova Iorque, sem a permissão do estúdio, Marilyn Monroe teve de
abandonar os sets de filmagem da comédia Something's Got To Give. Era
praticamente o fim.
O filme que serviria para salvar a 20th Century Fox da
falência, por causa dos excessos na produção de Cleópatra, estava com a
produção atrasada havia meses. Marilyn não apareceu para trabalhar em sequer
metade dos dias de filmagem.
Agora, o estúdio estava a beira do desespero
porque sua estrela mais lucrativa desde Shirley Temple não conseguia mais
gravar.
Aquele filme lhe trazia más recordações, as crianças que contracenavam
com ela tinham a mesma idade que os seus filhos teriam, caso ela não tivesse
sofrido dois abortos espontâneos durante seu casamento com Arthur Miller.
Dirigida por George Cukor - o diretor das estrelas - que segunda ela a odiava,
lembrava outro filme em que foi dirigida por ele - Adorável Pecadora (Let's Make
Love, 1960), que ela odiou filmar.
No fim, era uma produção fadada ao fracasso
no estado caótico em que Marilyn estava vivendo.
Mesmo assim, as fotografias
dela nua na piscina correram o mundo, e Something's Got To Give é um grande
objeto de interesse e pesquisa até hoje.

Os dias finais de Marilyn
são motivo de relatos ambíguos.
As poucas pessoas próximas e os poucos amigos
relataram que ela estava incrivelmente calma, serena, ansiosa e fazia mil
planos para o futuro. Parecia querer mostrar uma outra imagem, de uma nova mulher.
Outros disseram que os dias finais foram iguais a todos os outros - tristes,
caóticos e solitários. Um dos fatos é que depois de sua demissão do estúdio ela
iniciou uma verdadeira campanha de publicidade - deu entrevistas, apareceu na
televisão, e posou para fotos.
Queria mostrar que não estava morta, que ainda
era Marilyn Monroe e não tinha acabado. Os últimos a fotografá-la foram George
Barris e Bert Stern.
Seu maquiador pessoal Allan 'Whitey' Snyder que a
acompanhou por toda sua carreira, disse que ela nunca pareceu tão melhor e
estava animada com as oportunidades disponíveis para si mesma. Em sua última
entrevista, publicada depois de sua morte ela implorou:
"Por favor, não
faça de mim uma piada. Termine a entrevista com o que eu acredito. Eu não me
importo de fazer piadas, mas não quero parecer com uma. Eu quero ser uma
artista, uma atriz com integridade".
No final das contas, conseguiu ser
recontratada pela Fox com um contrato milionário, que ela infelizmente não teve
a oportunidade de aproveitar.

Norma Jeane Mortenson
nasceu no dia primeiro de junho de 1926, e morreu na madrugada do dia 5 de agosto
de 1962. A autópsia encontrou oito miligramas por cem de hidrato de cloral e
4.5 miligramas por cem de Nembutal em seu organismo.
A conclusão foi overdose
de barbitúricos resultada de 'provável suicídio'.
Ninguém nunca acreditou.
Em 8
de Agosto ela foi sepultada no Westwood Village Memorial Park em Los Angeles,
na mesma cidade onde nasceu.
Seu segundo ex-marido, Joe DiMaggio, pagou o
funeral e cuidou de toda a cerimônia.
Marilyn foi maquiada por Snyder pela
última vez, assim como ele prometeu anos antes, caso ela falecesse antes dele.
Monroe vestia seu vestido preferido, de Emilio Pucci, verde, e segurava nas
mãos um buquê de flores rosas.
DiMaggio não permitiu a presença de ninguém do
meio artístico, gente que segundo ele foram os responsáveis pela morte dela.
Na
cerimônia estavam apenas pessoas muito próximas a ela, seu psiquiatra, o doutor
Ralph Greenson, e a meia-irmã Berniece Baker Miracle (ainda viva).
Pelos
próximos vinte anos DiMaggio mandou depositar rosas vermelhas todos os dias ao
lado da cripta de Marilyn.
Contam que quando estava prestes a morrer, teria
dito "finalmente vou rever Marilyn".

Mulheres como Norma Jeane
ou Marilyn Monroe não nascem todos os dias. Resta a história de uma mulher que
tinha tudo para ser nada, mas acabou se tornando tudo.
Uma mulher que sofreu
traumas irreparáveis, mas sobreviveu a todos eles e cresceu através do seu
próprio esforço. A história troncuda de uma atriz subestimada e esnobada que se
tornou um dos maiores ícones da história do cinema. Aquela que sempre teve que
rebolar para negociar seu próprio salário e não ser engolida pelas outras
estrelas, salário este que muitas vezes era menor que o do seu maquiador. Nunca
teve inimigos, nem desafetos, não se metia em escândalos e gostava de ter sua
vida privada protegida. Resta a história de um exemplo de atriz, de mulher e de
ser humano.
Entendam que Marilyn
Monroe era o personagem de uma mulher que encenava o tempo todo. Que nunca pode
ser ela mesma, porque ninguém nunca havia dado nada por ela.
Norma Jeane não
era a mesma pessoa que Marilyn Monroe. Era uma mulher frágil, doce e
perturbada, que criou um personagem mil vezes mais forte, inflamável e
exuberante. Triste ou alegre, não a julguem e lembrem-se dela com carinho.
Ontem, foram cinquenta
anos, amanhã serão mais cinquenta, porque o tempo passa tão rápido quanto os
teus 36 anos. Adeus Norma Jeane, que na outra vida você possa apenas viver em
paz.
post: Marcelo Ferla