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quarta-feira, 27 de junho de 2018

A compaixão de Bardot pelos bichos.


A compaixão de Bardot pelos bichos
Ex-símbolo sexual relata em livro por que abandonou o cinema para se dedicar de corpo e alma à proteção dos animais — ato que ela compara a um sacerdócio
MUNDO ANIMAL A atriz nos anos 1960: o amor à natureza se tornou missão (Crédito: Divulgação)
Celso Masson


Em fevereiro de 1968, a escritora Marguerite Yourcenar (1903-1987) enviou uma carta a Brigitte Bardot. 
Ambas viviam o auge da fama. 
Marguerite havia publicado mais de uma dezena de livros, incluindo a obra-prima “Memórias de Adriano”, de 1951. 
Brigitte já estrelara quase trinta filmes, entre eles “E Deus criou a mulher” (1956), “O Desprezo” (1963) e “Eu sou o amor” (1967). 
Na carta, a belga que anos depois seria a primeira mulher na Academia Francesa, pedia à atriz que usasse sua notoriedade mundial para combater o massacre das focas, persuadindo mulheres a abandonarem roupas de pele. 
“Eu me dedicaria a isso nove anos depois, sem saber que alguém no mundo já havia pensado em mim para conduzir essa batalha”, afirma Brigitte em “Lágrimas de Combate” (Editora Globo). 
“Por ironia do destino, só vim receber a carta muito tempo depois”.
Foi por um programa de televisão que a atriz soube da crueldade do abate de focas para a indústria da moda. 
Pouco depois, em uma foto tirada em 1977 sobre uma geleira ártica no Canadá, Brigitte Bardot aparecia com um bebê foca no colo. 
A imagem estampou a capa da revista “Paris Match”, correu o mundo e se tornou um dos mais poderosos símbolos da luta pelo fim da matança — àquela época estimada em até 300 mil focas por ano. 
Ter passado alguns minutos em contato corpo a corpo com o bebê foca marcou profundamente a vida da atriz. 
“Prometi a mim mesma que passaria minha existência tentando salvar a deles”. 
Dez anos depois, o governo do Canadá finalmente proibiu a caça dos blanchons, os bebês foca. 
A primeira batalha estava ganha, mas o combate mal começara. 
Já afastada das telas, Bardot se dedicaria ao que chama de “sacerdócio” como defensora dos animais. 
“Minha ideia era criar uma associação para ter credibilidade e o reconhecimento que eu esperava sobre a condição animal”.

DA PIN UP AOS MANIFESTOS O livro, a sensualidade juvenil (abaixo) e durante protesto (fim da reportagem)

“Prometi a mim mesma que passaria minha existência tentando salvar a deles” Brigitte Bardot, atriz, sobre sua missão de defender a vida selvagem

Vestido de noiva
Luta contra a crueldade (Crédito:Divulgação)
Nascia ali a Fundação Brigitte Bardot, financiada com a venda de objetos da atriz em uma barraca no mercado de Saint-Tropez, cidade que ela ajudou a celebrizar tanto quanto Búzios (RJ), por onde ela passou como um furacão. 
Como o dinheiro inicial foi insuficiente, Brigitte levou a leilão o que possuía de mais valioso: o primeiro violão, as joias que ganhou do empresário alemão Gunther Sachs (com quem fora casada nos anos 1960) e até o vestido de noiva com o qual subiu ao altar com o cineasta Roger Vadim. 
“Nunca me dou conta de que sou a base desse organismo de uma centena de funcionários em Paris e de seus milhares de doadores, representantes e pesquisadores voluntários em toda a França”, afirma, dizendo-se ainda hoje hipnotizada pelo tamanho que a fundação ganhou ao longo do tempo. 
A FBB mantém um parque para acolher ursos maltratados na Bulgária, além de hospitais veterinários no Chile, na Austrália, na Tailândia e na Tunísia. 
Entre as atividades mais famosas que a Fundação apoiou está o financiamento de duas missões encabeçadas pela ONG ativista Sea Shepherd na Dinamarca, em 2010 e 2014, para lutar contra o massacre de baleias. 
Desde 2011, a embarcação Brigitte Bardot é usada pela ONG em suas investidas. 
É mais uma arma da cruzada animal que tem como musa uma das mais belas criaturas que a natureza criou.

post: Marcelo Ferla
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terça-feira, 4 de abril de 2017

A apresentadora japonesa que desafia tabu e relata luta contra câncer em blog.


A apresentadora japonesa que desafia tabu e relata luta contra câncer em blog.


Mao Kobayashi durante tratamento contra o câncer.
No Japão, raramente se fala sobre câncer. 
Geralmente, só se ouve falar da batalha de alguém contra a doença quando ela é vencida ou quando a pessoa morre, mas Mao Kobayashi, uma apresentadora de telejornal de 34 anos, decidiu mudar isso com um blog - agora o mais popular no país - sobre sua doença e sobre como isso mudou sua perspectiva sobre a vida. 
Veja abaixo o seu depoimento:
"Há dois anos, quando eu tinha 32 anos, fui diagnosticada com câncer de mama. 
Minha filha tinha três anos, meu filho tinha apenas um. 
Eu pensei: 'Vai ser OK porque posso voltar a ser quem eu era quando o câncer for tratado e curado'
Mas não foi fácil assim e eu ainda tenho câncer no meu corpo.
Por muito tempo, eu escondi a doença. 
No meu trabalho, eu apareço na TV, então, eu tinha medo de ser associada com a doença ou de mostrar aos outros as minhas fraquezas. 
Eu evitava ser vista a caminho de consultas médicas e parei de me comunicar com as pessoas para que não me descobrissem.
Mas, ao querer voltar a ser quem eu era antes, eu estava, na verdade, me dirigindo mais e mais para as sombras, me distanciando da pessoa que eu queria ser. 
Depois de viver assim durante 20 meses, a médica responsável pelo meu tratamento paliativo disse algo que me fez mudar de ideia.

'Não se esconda atrás do câncer', disse ela, e eu percebi o que havia acontecido. 
Eu o estava usando como desculpa para não viver mais.".
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Uma doença que os japoneses escondem

Mao Kobayashi trabalhava como apresentadora de notícias.
Nas palavras da repórter da BBC Mariko Oi: Kobayashi (na foto acima, durante seus dias como apresentadora de telejornal) não é a única a querer esconder o câncer no Japão. 
É um país onde as pessoas frequentemente relutam em falar sobre qualquer assunto pessoal com os outros, muito menos sobre doenças sérias. 
Quando um tabloide publicou sua doença como um furo, muito viram isso como uma intrusão em sua privacidade e ficaram revoltados. 
Seu marido, o ator Ebizo Ichikawa, convocou uma coletiva de imprensa e pediu aos jornalistas que os deixassem em paz. 
Portanto, a decisão de Kobayashi de começar um blog três meses depois surpreendeu muitas pessoas, inclusive algumas de sua família. 
Mas as notícias frequentes sobre coisas como sua determinação em ir ao torneio de atletismo do jardim de infância de seus filhos inspirou não apenas quem também luta contra o câncer, mas muitos outros.
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"Eu havia me culpado e me considerado um 'fracasso' por não ter conseguido viver como antes. 
Eu estava me escondendo por trás da minha dor.

Até então, eu estava obcecada em estar envolvida em todos os aspectos da vida doméstica porque era assim que minha mãe se comportava. 
Mas quando eu fiquei doente, eu não conseguia fazer nada, muito menos tudo, e no final, quando eu estava hospitalizada, eu tive que me separar de meus filhos.".

Mao Kobayashi com seu filho.
Quando fui obrigada a abandonar essa obsessão em ser a mãe perfeita - o que me torturava em corpo e mente - eu percebi que o sacrifício que eu havia feito não valia a pena.
Apesar de não poder cozinhar ou levá-los e buscá-los no jardim de infância, a minha família ainda me aceitava, acreditava em mim e me amava, da mesma forma como sempre o fizeram, como mulher e mãe.
Então, decidi ir a público e escrever um blog sobre minha batalha contra o câncer. 
Quando eu o fiz, muitas pessoas se solidarizaram e rezaram por mim.
Eles me contaram, em seus comentários, sobre suas experiências de vida, como eles enfrentaram e superaram suas dificuldades. 
No fim das contas, o mundo que eu tanto temia estava cheio de amor e carinho e, agora, eu estou conectada com mais de um milhão de leitores.".

"A minha família me amou e eu os amei", diz Kobayashi.
"Se eu morresse agora, o que as pessoas pensariam? 
'Coitada, ela tinha apenas 34 anos?' 
'Que pena, deixou duas crianças pequenas?' 
Eu não quero que as pessoas me vejam assim porque a minha doença não define a minha vida.
A minha vida foi rica e colorida - eu conquistei sonhos, às vezes, tive de batalhar pelo caminho e encontrei o amor da minha vida. 
Eu fui abençoada com duas crianças preciosas. 
A minha família me amou e eu os amei.
Então, eu decidi não deixar que o tempo que me resta seja totalmente eclipsado pela doença. Eu serei quem eu quiser ser."
Todas as fotos são cortesia de Mao Kobayashi
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Mao Kobayashi é uma das 100 escolhidas para o projeto da BBC 100 Women, que celebra mulheres influentes e inspiradoras do mundo todo anualmente.

post: Marcelo Ferla

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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Coisas que talvez você não saiba sobre ela...

MARILYN NO DIVÃ.
POR VITOR DIRAMI

Um artigo caótico e perturbador como uma sessão de psicanálise, as gravações de um filme ou apenas como o coração de uma mulher. Como o coração de Norma Jeane, a mulher por detrás do mito Marilyn Monroe. Cinquenta anos depois.

p.s - este texto fora publicado na data de aniversário de 50 anos de morte da atriz.

Marilyn fotografada por Alfred Eisenstaedt, 1953.

Durante muitos anos - e até hoje - grafaram (erroneamente) o nome Norma Jean como a verdadeira identidade de Marilyn Monroe. Na verdade, ela se chamava Norma Jeane Mortenson e não Norma Jean. 

Desde criança, quiseram fazê-la crer que se chamava Norma Jean em homenagem a diva Jean Harlow - a mãe de todas as loiras, de quem Norma foi fã por toda vida. 

Ela era seu grande ídolo, se inspirava em Harlow e baseava sua própria vida na triste história de Harlow, quase obsessivamente.

Marilyn na praia de Amagansett, fotografada por Sam Shaw, 1957.

Norma nunca conheceu seu pai, ou como especulam, talvez ela tenha sido rejeitada por ele. Ela não foi um bebê bem-vindo, sua mãe, Gladys Baker, não tinha condições de cuidar e sustentar um bebê. Seus avós paternos morreram enlouquecidos e a loucura não demorou a acometer a mãe de Norma Jeane. 

Desde tenra idade ela viveu abrigada na casa de Ida e Albert Bolender, um casal que cuidava de várias crianças que por alguma razão não tinham um lar; Norma era uma dessas. 

Ela viveu na casa dos Bolender até os 7 anos, quando Gladys a levou embora à força para viver junto dela; o que podia ter sido um belo recomeço para mãe e filha, foi infelizmente interrompido quando a sanidade mental de Gladys começou a dar sinais de fraqueza. 

Em 1933, após vários episódios traumáticos ela acabou sendo internada em uma clínica psiquiátrica com o diagnóstico de esquizofrenia. Gladys nunca mais voltou a ser a mesma d'antes.
Até ali, a menina Norma Jeane já vivera experiências dolorosas demais para uma criança. Ela não sabia quem era o seu pai, e já sentia a rejeição da mãe. 

Mesmo enquanto morava na casa dos Bolender, Ida não permitia que Norma a chamasse de mãe, já que sua verdadeira mãe estava viva - mesmo que parecesse o contrário. 

Gladys vivia distanciada da filha, não a procurava e a visitava poucas vezes. Os abandonos, rejeições, mudanças e sofrimentos que eram implicados a Norma Jeane, acabaram criando cicatrizes profundas na alma da menina, feridas que nunca fecharam e a marcaram para sempre.

Marilyn na praia de Santa Monica fotografada por George Barris, 1962.
Marilyn fotografada por Milton Greene, 1955.
Ela nunca teve algo que se possa chamar de 'lar tradicional', nunca teve uma casa com pais e que pertencesse a ela, e que ela pertencesse aquele lar. 

Do fim da infância ao começo da idade adulta, ela viveu em diversas casas de parentes distantes e famílias de criação, incluindo uma passagem pelo orfanato Los Angeles Orphans Home, um dos maiores traumas de sua vida. 

Sua guardiã Grace Mckee, que era melhor amiga de sua mãe, a deixara no orfanato em 1935, porque se casara e iria construir uma família em que não havia espaço para Norma Jeane (muitas famílias se interessaram em adotá-la, incluindo o casal Bolender, mas Grace McKee sempre rejeitava as propostas. Imaginem o quão triste é a vida de uma criança num orfanato, a sensação de abandono e solidão. Ainda mais para uma menina que tinha uma mãe. 

Anos depois, já como Marilyn Monroe, ela declarou que não entendia o que fazia no orfanato, porque não era órfã, porque tinha mãe.
Quando alguns anos depois se eternizou gravando suas mãos e pés no cimento da calçada da fama do Grauman's Chinese Theater, em Los Angeles, nada mais poderia lhe parecer impossível. Ela havia sonhado com aquilo durante toda sua infância. Sempre lhe disseram que seria uma estrela. Quando criança, Grace McKee a levava aos cinemas de Hollywood Boulevard para ver as estreias das grandes estrelas, e lhe dizia que um dia ela estaria ali, seria a sua vez de estrear. 

A menininha Norma Jeane tentava encaixar seus pequenos pezinhos nas pegadas das grandes divas. Um dia seria a sua vez de gravar suas pegadas. E quando ela deixou suas marcas em 1953, ao lado da morena Jane Russell, teve o seu sonho realizado, felizmente desta vez não tinham mentido para ela.

Marilyn, ainda Norma Jeane, fotografada por André de Dienes, 1946.

Marilyn tomando aulas de dança, 1949.
No fim dos anos 40, Hollywood era abarrotada de espertalhões metidos a agentes e produtores, chamados de woolfs (lobos). Mau-caráteres que se aproveitavam e abusavam das jovens starlets pretendentes a estrelas, também abundantes naquela época. 

O maior exemplo disso é o macabro episódio de Dália Negra, ocorrido em 1948. Norma Jeane sabia bem disso. 

Vendia-se de tudo aos lobos, aos fotógrafos e aos produtores. 

O corpo, a imagem, por uma figuração ou por um papel qualquer numa próxima produção dos estúdios. 

O sexo era moeda de troca e o mercado era sórdido, cruel, nada glamouroso. 

O ambiente era triste, frio e solitário. Jogava-se com o que se tinha a oferecer, e comprava-se de tudo pelo sucesso.
Nesta época, Norma Jeane ganhava pouco e tinha de viver como podia. Ela alternava os dias entre aulas de dança, canto e teatro, mas ainda estava longe de se tornar uma estrela, só fazia figurações ou 'pontas' em pequenas produções sem grande destaque. 

O salário pago pela 20th Century Fox era baixo, e volta a meia ela tinha que voltar a modelar para complementar a renda. 

A vida era difícil, cara e muito solitária. 

A corrida ao estrelato era diária, dura e cansativa, conseguir um papel de destaque era tarefa difícil. Norma se mudava constantemente de apartamento, conforme o valor do aluguel subia ou aumentava. Em 1949 sua situação era tão tensa e instável que ela aceitou posar nua para o fotógrafo Tom Kelley só para não perder o carro comprado a crédito. 

O preço: 50 dólares. As fotos eram para um calendário, e ela já temendo que viessem destruir sua carreira, exigiu sigilo e preferiu assinar como Mona Monroe. 

Em 1953, quando já atingira a fama e o sucesso, as fotos voltaram à tona, desta vez como sendo da grande estrela Marilyn Monroe.

Marilyn fotografada por Ed Clark, 1950.
Marilyn fotografada por Tom Kelley, 1949.
Entre 1949 e 1952, ela alcançou o estrelato se destacando em diversas produções, tendo participado dos clássicos A Malvada (All About Eve) e O Segredo das Jóias (The Asfalt Jungle) - ambos em 1950. Em 1952 ela teve sua primeira - e uma das poucas - chances de mostrar seu talento dramático, como protagonista do longa Almas Desesperadas (Don't Bother to Knock), no qual interpretou uma babá psicótica. Qualquer semelhança com fatos reais seria mera coincidência?
Até ali, Marilyn já tinha alcançado o sucesso, e era a mais promissora atriz de Hollywood. 

Seu bom desempenho no drama Almas Desesperadas e a popularidade adquirida levaram a 20th Century Fox a investir pesado nela e nos três filmes de 1953 que a consolidaram como o maior ícone do cinema dos anos 50. 

Diferente do seus personagens habituais, no melodramático film noir Torrentes de Paixão (Niagara) - o primeiro dos três clássicos de 1953, ela interpretou Rose Loomis, uma femme fatale sedutora e irresistível. 

Não é uma de suas melhores atuações, mas ela está no auge da beleza e brilhando num papel altamente sexy, transpirando sensualidade.

Marilyn fotografada por Willy Rizzo, 1962.
Marilyn fotografada por Alfred Eisenstaedt, 1953.
Marilyn sempre se esforçou para ser uma boa atriz, esse era o seu maior desejo. Ela estudou arduamente para ser uma boa atriz. Queria ser reconhecida, respeitada e aplaudida. 

"Meu trabalho é a única fundação que eu tenho para me sustentar. Eu me sinto como uma superestrutura sem fundações - mas eu estou trabalhando nelas". 

Marilyn é um verdadeiro de exemplo de atriz, de como uma atriz deve ser. 

Ela entendia a verdadeira essência da profissão e do que é o trabalho de um ator. 

"Uma atriz não é uma máquina, mas eles tratam você como uma máquina. Uma máquina de dinheiro". 

E dedicou-se plenamente a esse intento. Teve aulas durante anos com Natasha Lytess, uma das melhores coaches de Hollywood, que exercia uma estranha e possessiva dominação sobre ela, e a acompanhou em inúmeros filmes, incluindo seus maiores êxitos como Os Homens Preferem as Louras (Gentlemen Prefer Blondes) e Como Agarrar um Milionário (How to Marry a Millionaire). Sua atuação um tanto afetada, cheia de maneirismos e expressões faciais baseadas nas atuações do cinema mudo fizeram dela uma grande comediante. 

Billy Wilder a definiu como um gênio na comédia - e de fato ela era, mas é difícil até ser uma boa comediante quando se interpreta sempre a mesma loira burra em todos os filmes.

Marilyn e Joe DiMaggio no dia do seu casamento, 1954.

Marilyn e soldados norte-americanos na Coreia, 1954.
Em 1955, Marilyn ingressou no Actor's Studio de Lee Strasberg. A famosa escola de atuação nova-iorquina onde também estudou Marlon Brando. 

Pouco tempo antes, ela tinha tomado aulas de atuação com Constance Collier, veterano do cinema mudo, então com 77 anos e que viria a morrer pouco tempo depois. No Actor's Studio, Marilyn estava obstinada em mudar os rumos de sua carreira e se tornar uma atriz dramática devidamente reconhecida. 

Para isso, tornou-se adepta do "método de imersão" de Constantin Stanislavski, de quem Lee Strasberg era o maior discípulo. 

O controverso método consiste em extrair dos próprios atores as emoções e pensamentos de seus personagens, visando criar uma interpretação mais realista o possível, isso inclui buscar os sentimentos mais tristes e profundos, utilizando da memória sensorial e afetiva. 

Marilyn era muito estudiosa e muita sincera com os estudos, gostava de se sentar na última fileira da classe para não chamar a atenção dos outros para si mesma. Ela passou todo o ano de 1955 em Nova Iorque tendo aulas no Actor's Studio, e quando Lee Strasberg achou que ela já estava preparada para dar uma performance na frente dos outros, Monroe escolheu a cena de abertura da peça Anna Christie de Eugene O'Neill, ganhadora do prêmio Pulitzer de 1922. 

A peça foi levada ao cinema em 1930 no primeiro filme falado de Greta Garbo no papel título (Marilyn era uma grande fã de Garbo), e rendou-lhe sua primeira indicação ao Oscar de Melhor Atriz. Os outros alunos foram desencorajados a aplaudir, mas a performance de Marilyn foi tão natural que resultou em aplausos espontâneos.

Marilyn no hotel Ambassador, Nova Iorque, 1955.

Marilyn fotografada por Eve Arnold lendo Ulisses, 1954.
Em 1956, Marilyn foi à Londres para filmar O Príncipe Encantado (The Prince and the Showgirl) com Laurence Olivier, tido como o maior ator shakespeariano, marido de Vivien Leigh e que também era responsável pela direção do filme. 

O Príncipe Encantado foi seu único filme fora de Hollywood e a primeira produção da Marilyn Monroe Productions. Sim, exatamente. 

Marilyn criou uma produtora independente para poder tocar seus próprios projetos e não ter de ficar refém dos papéis abobalhados que ela não suportava mais. Produzido em associação com a Warner Bros. o filme foi unanimente elogiado pela crítica europeia e rendeu à Monroe o David di Donatello - a maior honraria do cinema italiano, equivalente ao Oscar - por sua performance, e uma nomeação ao BAFTA de Melhor Atriz Estrangeira. 

No filme, ela engole totalmente o grandioso Olivier, no papel de uma corista, e ele no de príncipe regente de um país fictício. A comédia romântica se desenrola em um delicioso jogo de gato e rato para ver quem vai conquistar quem. 

Este é o filme em que ela mais se assemelha a sua figura original, sua voz e seus cabelos são os mais próximos do natural e sua atuação é deliciosamente espontânea.
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Marilyn fotografada por Ed Feingersh em frente a loja de Elizabeth Arden em Nova Iorque, 1955.

Marilyn era muito inteligente. Por trás do falso personagem criado pela mídia, pelo estúdio e até por ela mesma, havia uma mulher capaz, íntegra, honesta e elegante. Apreciava boa leitura, principalmente Dostoiévski, Franz Kafka, Vladimir Nabokov, Beckett, Bernard Shaw e também Jack Kerouac. Um de seus livros prediletos era Ulisses de James Joyce. 

Sua peça de teatro predileta era Um Bonde Chamado Desejo de Tennessee Williams. Também apreciava Goya, Michelangelo, Picasso, Degas e Botticelli. 

Seu perfume preferido era Chanel Nº5 e os cosméticos de Elizabeth Arden agradavam-lhe bastante. Nutria um bom gosto excepcional para o vestuário; fora dos figurinos extravagantes e luxuosos dos filmes, ela sempre optou por vestidos de mangas longas e decotes discretos. Não gostava de se exibir e mostrar o corpo. Nunca gostou de ser o centro das atenções e chamar atenção pelos atributos físicos.
Marilyn também tinha certo engajamento político e social. 

"O que eu realmente quero dizer: que o mundo realmente precisa de um sentimento de parentesco. Todos: estrelas, operários, negros, judeus, árabes. Nós somos todos irmãos. Por favor, não faça de mim uma piada. Termine a entrevista com o que eu acredito". 

Um fato quase desconhecido, é que Marilyn chegou a ajudar Ella Fitzgerald em sua carreira. O Mocambo Nightclub era uma das boates mais famosas de Los Angeles nos anos 50 e não aceitava cantores negros. 

A própria Marilyn interviu pessoalmente junto ao dono da casa usando de seu status perante a imprensa e exigindo Ella Fitzgerald como atração do clube. 

Em troca, ela estaria lá todas as noites na mesa da frente. 

E assim foi, Ella conta que depois disso nunca mais precisou cantar em um clube pequeno de jazz. 

"Ela era uma mulher incomum, um pouco à frente de seu tempo. E ela não sabia disso".




Marilyn teve uma longa experiência com a psicanálise. 

Ela começou a se consultar com a doutora Margaret Hohenberg por influência de Lee Strasberg, que achava que o tratamento ajudaria na exploração de suas emoções e consequentemente, no seu processo de amadurecimento como atriz no Actor's Studio. Foi a partir daí que ela começou a dar voz às vozes. 

Nunca mais foi a mesma. 

Grande parte dos problemas de Marilyn eram consequência da psicanálise. De 1955 a 1962 ela deitou sobre o divã de 5 psicanalistas. Chegou a se consultar com Anna Freud, filha do próprio pai da psicanálise, que a atendeu quando estava na Inglaterra filmando O Príncipe Encantado. 

Marilyn acabou desenvolvendo uma bizarra dependência e obsessão por psicanálise, consumindo tudo o que pudesse sobre o assunto, ela demonstrava um conhecimento gigantesco para alguém que não era profissional. 

Sua dependência era tão grande que ela não conseguia mais sequer gravar sem a ausência de sua psiquiatra. Tinha crises de ansiedade, paranoia, medo. 

Faltava dias ao trabalho. Esquecia os textos e paralisava toda a produção, já que a estrela nunca estava pronta para gravar. Ao longo dos anos, a situação foi galgando níveis absurdos até que Marilyn simplesmente não conseguia mais filmar.
A psicanálise é uma ciência perigosa. 

Vai à fundo nas memórias mais dolorosas e sofridas na tentativa de extrair o "problema". Os tratamentos são sempre longos e exaustivos e não se sabe certamente qual cura se busca. 

No caso de Marilyn, talvez a psicanálise tenha sido mesmo desastrosa. Ela não conseguia mais se libertar dos sofrimentos emergidos, passou a viver enclausurada entre suas memórias trágicas, numa atmosfera completamente dark. Seu estado de espírito era o pior possível, lamentável. Nada podia parecer reerguê-la. Mas talvez, ela tivesse a certeza de que seria curada pela psicanálise.



O último ano de vida de Marilyn Monroe foi tormentoso. 

Ela não conseguia mais equilibrar a vida. 

Sua saúde estava cada vez mais debilitada e sua instabilidade mental se acentuava a cada dia. 

Compareceu a cerimônia do Globo de Ouro em 05/03/1962, onde ganhou a estatueta na categoria de Atriz Favorita do Mundo Durante o Ano de 1961. 

Estava completamente bêbada, distribuindo gargalhadas na companhia de seu amante mexicano José Bolaños. Vestia um vestido verde de paetês que deixava suas costas nuas, exibindo sua magreza exagerada. 

Para todos, ela estava acabada e o fim estava próximo.


Em 19 de maio de 1962, Ela voou até Nova Iorque para encenar seu último ato no baile de gala pelo aniversário do presidente John F. Kennedy, onde cantaria Happy Birthday. Monroe parecia ter ensaiado a vida inteira para aquilo, e de fato tinha. Pagou 5.000 ou 12.000 dólares ao figurinista ganhador do Oscar Jean Louis para lhe fazer o vestido que só Marilyn Monroe pudesse usar. 

O vestido justíssimo e coberto de pedrarias a fez resplandecer assim que pisou no palco, parecia estar nua, mas nunca esteve tão bela. 

Ela se preparou para cantar Happy Birthday da maneira mais sensual e provocante que podia. Era tudo proposital, cada palavra da sua boca parecia transpirar sexualidade, doçura e prazer. 

Quando ela entrou no palco do Madison Square Garden estava atrasada, ela vivia atrasada, estava sempre atrasada. Peter Lawford, cunhado do presidente e mestre de cerimônias a anunciou como "the late Marilyn Monroe" - em inglês late quer dizer 'atrasada', mas também significa 'falecida'. 

Era o último ato.


Para cantar no baile do presidente em Nova Iorque, sem a permissão do estúdio, Marilyn Monroe teve de abandonar os sets de filmagem da comédia Something's Got To Give. Era praticamente o fim. 

O filme que serviria para salvar a 20th Century Fox da falência, por causa dos excessos na produção de Cleópatra, estava com a produção atrasada havia meses. Marilyn não apareceu para trabalhar em sequer metade dos dias de filmagem. 

Agora, o estúdio estava a beira do desespero porque sua estrela mais lucrativa desde Shirley Temple não conseguia mais gravar. 

Aquele filme lhe trazia más recordações, as crianças que contracenavam com ela tinham a mesma idade que os seus filhos teriam, caso ela não tivesse sofrido dois abortos espontâneos durante seu casamento com Arthur Miller. 

Dirigida por George Cukor - o diretor das estrelas - que segunda ela a odiava, lembrava outro filme em que foi dirigida por ele - Adorável Pecadora (Let's Make Love, 1960), que ela odiou filmar. 

No fim, era uma produção fadada ao fracasso no estado caótico em que Marilyn estava vivendo. 

Mesmo assim, as fotografias dela nua na piscina correram o mundo, e Something's Got To Give é um grande objeto de interesse e pesquisa até hoje.


Os dias finais de Marilyn são motivo de relatos ambíguos. 

As poucas pessoas próximas e os poucos amigos relataram que ela estava incrivelmente calma, serena, ansiosa e fazia mil planos para o futuro. Parecia querer mostrar uma outra imagem, de uma nova mulher. 

Outros disseram que os dias finais foram iguais a todos os outros - tristes, caóticos e solitários. Um dos fatos é que depois de sua demissão do estúdio ela iniciou uma verdadeira campanha de publicidade - deu entrevistas, apareceu na televisão, e posou para fotos. 

Queria mostrar que não estava morta, que ainda era Marilyn Monroe e não tinha acabado. Os últimos a fotografá-la foram George Barris e Bert Stern. 

Seu maquiador pessoal Allan 'Whitey' Snyder que a acompanhou por toda sua carreira, disse que ela nunca pareceu tão melhor e estava animada com as oportunidades disponíveis para si mesma. Em sua última entrevista, publicada depois de sua morte ela implorou: 

"Por favor, não faça de mim uma piada. Termine a entrevista com o que eu acredito. Eu não me importo de fazer piadas, mas não quero parecer com uma. Eu quero ser uma artista, uma atriz com integridade". 

No final das contas, conseguiu ser recontratada pela Fox com um contrato milionário, que ela infelizmente não teve a oportunidade de aproveitar.


Norma Jeane Mortenson nasceu no dia primeiro de junho de 1926, e morreu na madrugada do dia 5 de agosto de 1962. A autópsia encontrou oito miligramas por cem de hidrato de cloral e 4.5 miligramas por cem de Nembutal em seu organismo. 

A conclusão foi overdose de barbitúricos resultada de 'provável suicídio'. 

Ninguém nunca acreditou. 

Em 8 de Agosto ela foi sepultada no Westwood Village Memorial Park em Los Angeles, na mesma cidade onde nasceu. 

Seu segundo ex-marido, Joe DiMaggio, pagou o funeral e cuidou de toda a cerimônia. 

Marilyn foi maquiada por Snyder pela última vez, assim como ele prometeu anos antes, caso ela falecesse antes dele. 

Monroe vestia seu vestido preferido, de Emilio Pucci, verde, e segurava nas mãos um buquê de flores rosas. 

DiMaggio não permitiu a presença de ninguém do meio artístico, gente que segundo ele foram os responsáveis pela morte dela. 

Na cerimônia estavam apenas pessoas muito próximas a ela, seu psiquiatra, o doutor Ralph Greenson, e a meia-irmã Berniece Baker Miracle (ainda viva). 

Pelos próximos vinte anos DiMaggio mandou depositar rosas vermelhas todos os dias ao lado da cripta de Marilyn. 

Contam que quando estava prestes a morrer, teria dito "finalmente vou rever Marilyn".


Mulheres como Norma Jeane ou Marilyn Monroe não nascem todos os dias. Resta a história de uma mulher que tinha tudo para ser nada, mas acabou se tornando tudo. 

Uma mulher que sofreu traumas irreparáveis, mas sobreviveu a todos eles e cresceu através do seu próprio esforço. A história troncuda de uma atriz subestimada e esnobada que se tornou um dos maiores ícones da história do cinema. Aquela que sempre teve que rebolar para negociar seu próprio salário e não ser engolida pelas outras estrelas, salário este que muitas vezes era menor que o do seu maquiador. Nunca teve inimigos, nem desafetos, não se metia em escândalos e gostava de ter sua vida privada protegida. Resta a história de um exemplo de atriz, de mulher e de ser humano.
Entendam que Marilyn Monroe era o personagem de uma mulher que encenava o tempo todo. Que nunca pode ser ela mesma, porque ninguém nunca havia dado nada por ela. 

Norma Jeane não era a mesma pessoa que Marilyn Monroe. Era uma mulher frágil, doce e perturbada, que criou um personagem mil vezes mais forte, inflamável e exuberante. Triste ou alegre, não a julguem e lembrem-se dela com carinho.


Ontem, foram cinquenta anos, amanhã serão mais cinquenta, porque o tempo passa tão rápido quanto os teus 36 anos. Adeus Norma Jeane, que na outra vida você possa apenas viver em paz.


post: Marcelo Ferla

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