Seja bem vindo ao Blog do Marcelo Ferla

Informativo

Sempre gosto de lembrar aos leitores que este blog tem como intenção trazer à tona a informação, o conhecimento e o debate democrático sobre os assuntos mais variados do nosso cotidiano, fazendo com que todos se sintam atualizados.

Na medida em que você vai se identificando com os assuntos, opine a respeito, se manifeste, não tenha medo de errar, pois a sua opinião é de suma importância para o funcionamento e a real função deste espaço, qual seja, a de levar a todos o pensamento e a reflexão.

O diálogo sobre o que é escrito aqui e sobre o que vem acontecendo ao nosso redor é muito mais valioso e poderoso do que podemos imaginar.

Portanto, sinta-se em casa, leia, informe-se e opine. Estou aqui para opinar, dialogar, debater, pensar, refletir e aprender. Faça o mesmo.

Pesquisa

Custom Search
Mostrando postagens com marcador Dica do Blogueiro.. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Dica do Blogueiro.. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Dica do Blogueiro.


6 maneiras de treinar seu cérebro para lidar com a ansiedade, mal que afeta 13 milhões de brasileiros.
Keila Guimarães
De São Paulo para a BBC Brasil

'Há pessoas que se preocupam com cada ponto de suas vidas e não conseguem se livrar disso', explica especialista.
Sofrer com a ansiedade é mais comum do que muitos imaginam: somente no Brasil, cerca de 13,3 milhões de pessoas têm distúrbios de ansiedade, doença que atrapalha relacionamentos, desempenho profissional e o bem-estar físico e emocional do indivíduo.
No ano passado, 6,4% da população brasileira sofria com transtornos do tipo, bem mais que a média global, de 3,9%, de acordo com estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS).
Mas o que é um transtorno de ansiedade e como diferenciá-lo da ansiedade natural? 
De acordo com Olivia Remes, doutoranda e pesquisadora do Departamento de Saúde Pública e Cuidados Primários da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, transtornos de ansiedade generalizada são caracterizados por sensações frequentes de medo, inquietação, e de "sentir-se no limite".
"Quando uma pessoa tem um prazo apertado ou uma emergência no trabalho, ela se sente ansiosa e isso é normal. 
Mas há pessoas que se preocupam com cada ponto de suas vidas e não conseguem se livrar disso", explica. 
"Pessoas com esse transtorno se preocupam muito mais frequentemente e com mais intensidade que aquelas com uma boa saúde mental."
Apesar dos distúrbios de ansiedade serem um problema sério, que muitas vezes demanda acompanhamento com especialistas, é possível desenvolver habilidades para lidar com o transtorno.
Abaixo, Remes compartilha diferentes estratégias para enfrentar o problema, com base em um estudo recente que liderou.
1. Monitore os seus pensamentos
Quem sofre com transtornos de ansiedade geralmente se vê tomado por pensamentos negativos que invadem a mente sem aviso. 
"Pessoas com transtornos de ansiedade são pessimistas. 
Elas acreditam que algo ruim está prestes a acontecer, mesmo que não haja nenhuma evidência que aponte para isso. 
Elas temem o futuro e acham muito difícil evitar esse tipo de preocupação", descreve a pesquisadora.

Quem sofre com transtornos de ansiedade geralmente se vê tomado por pensamentos negativos que invadem a mente.
Para contornar tal situação corriqueira aos ansiosos, Remes sugere não lutar contra os pensamentos negativos, mas escolher uma hora do dia como o "momento da preocupação" e se permitir um período limitado de tempo para ruminar. 
Como exemplo, Remes recomenda designar o horário das 16h para as preocupações e dar a si mesmo 20 minutos para preocupar-se.
"A literatura psicológica mostra que nossos pensamentos murcham se não os alimentamos com energia. 
Ao empurrar esses pensamentos para um outro momento do dia, quando você chegar no momento designado para a preocupação, eles talvez não pareçam tão confusos ou preocupantes como pareciam quando brotaram em sua mente pela primeira vez", explica Remes.
2. Faça atividades físicas e pratique meditação
A famosa citação latina "uma mente sã num corpo são" não é gratuita. 
Saúde mental e física são codependentes, afirma Remes, e a prática de exercícios físicos é um aliado essencial para o bem-estar psíquico. 
Em conjunto com exercícios regulares, a meditação consciente também pode ajudar mentes ansiosas.
Um estudo da Universidade de Nova Jersey, publicado recentemente na revista Nature, mostrou que apenas duas sessões semanais de meditação e atividades físicas, de 30 minutos cada, reduziram drasticamente sintomas depressivos nos 52 participantes da pesquisa. 
Os pesquisadores concluíram que, ao cabo de oito semanas, além de auxiliar aqueles com depressão, a prática também poderia ser útil para aqueles que tendem a ruminar pensamentos, algo comum entre os ansiosos.
"Eu realmente fiquei muito surpresa com esse estudo, com o quanto essas mudanças de hábito podem ter um impacto tão grande", afirma Remes. 
"Quando você se exercita, você diminui seus níveis de ansiedade e você tem mais energia. 
Você simplesmente se sente melhor como um todo", aponta.
3. Encontre um propósito - nem que seja cuidar de seu animal de estimação
Em 1946, o médico austríaco Viktor Frankl publicou o livro Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração, no qual narrou suas experiências como prisioneiro em Auschwitz. 
Frankl também analisa a resposta psicológica de diferentes prisioneiros expostos ao campo de concentração nazista e argumenta que encontrar sentido no cotidiano é uma forma de lidar com a adversidade.

Estudo de Remes notou que pessoas com senso de coesão, de propósito e que enxergavam sentido em suas vidas, tinham menos distúrbios de ansiedade.
De acordo com Remes, pessoas com distúrbios de ansiedade muitas vezes não conseguem identificar um propósito claro em suas vidas e nem sempre acreditam que vale a pena investir esforços para endereçar os desafios que encontram. 
Em seu estudo recente sobre níveis de ansiedade em mulheres que vivem em situações de privação econômica, Remes encontrou que aquelas que tinham senso de coesão, de propósito e que enxergavam sentido em suas vidas, tinham menos distúrbios de ansiedade, mesmo vivendo situações difíceis.
Para a pesquisadora, as lições de Frankl, mesmo extraídas de uma experiência dramática, são um mecanismo útil para aqueles que sofrem com ansiedade. 
"Nos relatos de Frankl, um traço de personalidade que diferenciava os prisioneiros eram aqueles que conseguiam manter um propósito mesmo naquela situação. 
Para um era saber que sua filha o aguardava, então ele precisava sobreviver para ela e isso lhe deu esperança. 
Para outra, era saber que ela tinha um trabalho importante para finalizar", afirma.
No cotidiano, ter a sensação de que você é necessário para a vida de outra pessoa ou para uma atividade específica auxilia na construção de propósito. 
Tal senso de conexão pode ser traduzido em atividades de voluntariado, em cuidados com um familiar enfermo, na educação de uma criança ou mesmo nos cuidados com um animal de estimação, aponta Remes.
"Quando você coloca seu foco em algo além de você, esse ato te ajuda a dar um tempo de si mesmo", explica. 
"Ter outras pessoas em mente é muito importante, porque torna um pouco menos penoso passar pelos momentos mais difíceis."
4. Veja o lado bom da vida (por mais que isso seja desafiador)
Por mais clichê que possa soar, adotar uma atitude positiva perante à vida, com foco nos aspectos bons ao invés dos ruins, é essencial para lidar com a ansiedade. 
Para domar a mente e espantar os pensamentos negativos, Remes recomenda olhar para elementos que te dão prazer, ao invés daqueles que te irritam ou que te deprimem.
Embora controlar quais pensamentos te veem à mente seja impossível, é possível dialogar com eles uma vez que se fazem presente. 
Se, ao chegar em um ambiente, algo negativo te chamar a atenção, busque encontrar algo que seja positivo. 
Se no caminho para o trabalho o trânsito estiver estressante, busque ouvir uma música que te conforte - ou mesmo mude a maneira de se deslocar ao trabalho. 
Essa atitude positiva perante os pequenos momentos da vida tendem a reverberar também no bem estar emocional do indivíduo, aponta Remes.

Se, ao chegar em um ambiente, algo negativo te chamar a atenção, busque encontrar algo que seja positivo.
Nas situações em que pensamentos negativos intensos invadem a mente, focar em outras atividades do corpo, como a respiração, também é uma forma de amenizar seus efeitos. 
"Reconheça que esses pensamentos catastróficos que vêm à mente, que te fazem se sentir péssimo, são apenas eventos mentais que irão passar", diz Remes.
5. Viva no presente
A prática de ruminar pensamentos e ser constantemente tragado por memórias do passado tende a alimentar a ansiedade. 
Preocupar-se com o que pode ocorrer no futuro também pode deixar o indivíduo mais ansioso. 
Embora muitas vezes esses pensamentos sejam difíceis de controlar, Remes aponta que é importante manter um foco constante no que você está fazendo agora.
"Estudos mostram que, quando nós vivemos no passado, revivendo memórias antigas, essa atitude nos deixa depressivos e menos felizes. 
Na verdade, ficamos mais felizes quando vivemos no momento presente. 
Se você está trabalhando, simplesmente foque naquilo que você está fazendo. 
Simplesmente viva no presente", diz.
6. Busque terapia
Nem sempre é possível lidar sozinho com distúrbios de ansiedade, e a terapia é uma grande aliada para melhorar a saúde mental. 
Em casos assim, uma possibilidade é a terapia cognitivo-comportamental, cujo princípio básico é buscar uma postura construtiva do paciente.
Nesse sistema de psicoterapia, a hipótese central aponta que a forma como entendemos eventos internos e externos - e não o evento em si - é que determina nossas respostas emocionais e comportamentais.
De acordo com Remes, a solução é preferencial ao consumo de medicamentos, quando for possível optar. 
"Em muitos casos, medicamentos não funcionam, ou funcionam apenas no curto prazo e os problemas retornam depois de um tempo", aponta. 
Para a pesquisadora, trabalhar para desenvolver habilidades de enfrentamento à ansiedade e buscar terapia são as melhores formas de lidar com o transtorno.

post - Marcelo Ferla

Continue Lendo... ►

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Dica do Blogueiro.


Com casa destruída por conflito, ‘ex-dona da Rocinha' diz que não há heroísmo no tráfico.
Júlia Dias Carneiro
Da BBC Brasil no Rio de Janeiro

Escritora namorou com o 'dono do morro' nos anos 1980.
Os novos confrontos na Rocinha, os tiroteios, as paredes esburacadas, o tanque na porta, o menino que viu morto na rua de olhos abertos, a sensação de que voltar para casa é "chegar ao inferno" - tudo isso vem dado uma sensação de déjà vu a Raquel de Oliveira.
"A história se repete", afirma a escritora e moradora da Rocinha, de 56 anos, dizendo-se triste pelo presente e "completamente cética" em relação ao futuro.
Raquel já esteve do outro lado dessa guerra, chefiando o tráfico da Rocinha, na zona sul do Rio, no fim dos anos 1980, "missão" herdada depois da morte de seu namorado, o traficante Ednaldo de Souza, o Naldo, que foi "dono do morro".
Ela revisita o passado de violência em seu primeiro romance, A Número Um (Casa da Palavra, 2015), uma obra de ficção inspirada em sua trajetória no tráfico, que incluiu três guerras na Rocinha e muitos "condenados à morte".
A mais recente guerra na maior favela do Rio, precipitada por uma disputa pelo controle do tráfico, levou a cúpula de segurança do Estado a pedir o apoio do Exército, com o envio de 950 homens das Forças Armadas à Rocinha na sexta-feira passada.
Ao ver mais um surto de violência, Raquel diz não sentir culpa nem arrependimento pelo envolvimento que teve na história violenta do local.
"Como eu poderia ir por outro caminho, se só tinha aquela estrada ali?", questiona, em entrevista à BBC Brasil. 
"Você cria a criança no meio de ladrões e quer que ela seja um empresário famoso de moda?"

Ainda criança, Oliveira ganhou a primeira arma e passou a trabalhar no jogo do bicho | Foto: Divulgação.
Ela considera ter tido muita sorte por sair de um caminho que costuma ser sem volta, "um ponto final", graças a pessoas que a ajudaram a largar o tráfico e a superar o pesado vício em cocaína, uma luta diária que a acompanha há 12 anos.
Mas diz que a Rocinha agora está "entre a cruz e a espada", temendo que o vácuo dê margem à entrada de uma nova facção criminosa ou mesmo de milicianos.
Raquel conta que começou a usar drogas aos seis anos. 
Com essa idade também foi vítima de uma tentativa de abuso do pai, pedófilo, e a mãe passou a mantê-la trancada por dias a fio em seu barraco. 
Cheirava cola para enganar a fome, depois passou para a maconha. 
Aos 9 anos, foi vendida pela avó a um bicheiro do morro. 
Aos 11 anos, ganhou sua primeira arma e passou a trabalhar "intensamente" para o jogo do bicho.
Descobriu na escrita o caminho para superar a dependência. 
Na reabilitação, foi incentivada a escrever para conseguir extravasar suas emoções, e descobriu um prazer e um talento até então insuspeitos.
Depois disso, completou o ensino médio, se formou em pedagogia em 2014, publicou poesias e contos em coletâneas da Festa Literária das Periferias (Flup) - e agora está escrevendo um novo romance, a ser publicado pela Companhia das Letras, e comemora que seu A Número Um em breve sairá em Portugal e na França e teve os direitos comprados para o cinema - o roteiro do livro está em fase de produção e o longa-metragem deve ser lançado em 2019.

BBC Brasil - Como você passou essa última semana na Rocinha? 
Sua casa foi afetada pelas trocas de tiros?
Raquel de Oliveira - A minha casa fica numa linha difícil, um beco que é caminho (rota do tráfico). 
Teve confronto aqui e a cozinha foi atingida. 
As paredes ficaram todas esburacadas, quebrou janela, porta, furou o piso de cerâmica. 
Isso começou de madrugada, eram 5h da manhã, estávamos dormindo. 
Graças a Deus o quarto é nos fundos. 
A gente colheu as balas que ficaram na parede, tinha bem umas quinze. 
E tinha dois defuntos no beco. ]
Agora tem um tanque de guerra no meu portão.

Em novo capítulo, Rocinha sofreu com conflitos relacionados à disputa do poder entre facções, até então nas mãos de Rogério 157.
Essa é a casa da minha mãe, onde moro e onde nasci. 
Eu tenho outra casinha na Rua 2, que alugava para ter alguma renda. 
Deu perda total. 
Não sobrou nada, está tudo furado de bala. 
A família (de inquilinos) saiu e nem pagou o mês. 
São barracos, né, não são casas não. 
Sou muito pobre, minha filha. 
Tudo o que o tráfico me deu, a cocaína levou. 
Cheirei tudo.
Mas eu dei sorte, não furou a minha caixa d'água, não furou o fogão nem a geladeira, não pegou em ninguém. 
Está tudo bem, graças a Deus.

BBC Brasil - A senhora nasceu na Rocinha em 1961 e assumiu o tráfico na favela nos anos 1980 depois da morte do Naldo. 
Como se sente diante de um novo conflito em torno da disputa do poder no morro?
Oliveira - Essa semana foi bem difícil. 
A história se repete. 
Fico muito triste. 
Porque foi uma guerra anunciada, tanto do lado da polícia quanto da comunidade.
O bagulho é um barril de pólvora, vinha crescendo e deu nisso. 
Acaba explodindo. 
É uma tradição da Rocinha. 
Nada que é do mal coopera para o bem. 
A tendência é as coisas entrarem nos eixos e o tráfico de drogas ser restabelecido, como foi na minha época.

Livro escrito por Oliveira será lançado em Portugal e na França, além de ir para o cinema | Foto: Divulgação.
BBC Brasil - Qual é a história que você diz que se repete?
Oliveira - Essa história da entrada da polícia e do Exército aqui. 
Teve isso quando implantaram esse fracasso da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora), teve isso quando o Nem foi preso (Antônio Bonfim Lopes, ex-chefe do tráfico na Rocinha, preso em 2011). 
Na minha época, nas operações Mosaico 1 e 2, o Exército tampou a favela (as operações Mosaico foram uma série de investidas em favelas cariocas no fim dos anos 1980, planejadas pela Polícia Federal para conter o crescimento do tráfico de entorpecentes). 
Hoje digo graças a Deus, porque foi preciso o apoio do Exército para apaziguar a situação. 
Entre aspas, né?
Enquanto não houver um programa sério para a questão da dependência química e da droga, não vamos a lugar nenhum. 
Vi um delegado falando que são os ricos de São Conrado que vêm comprar cocaína na Rocinha. 
P*rra nenhuma. 
Quem mantém o tráfico dentro da favela é o usuário regular, aquele que usa todo dia, que vende o liquidificador, a TV, o sapato, a criança, o corpo para comprar a droga. 
Esse é o usuário que banca o tráfico. 
Esse é o dinheiro que entra certinho todo dia, como um salário.
Eu conheço o Rogério 157 há muito tempo (Rogério Avelino da Silva, que estava chefiando o tráfico na Rocinha até a disputa que começou semana passada). 
Éramos conhecidos de vizinhança. 
Ele nem tinha vida no crime ainda, era um menino, normal. 
Com o tempo nessa posição (de chefe do tráfico), ele foi enlouquecendo. 
Fui a um churrasco em que ele apareceu muito transtornado, drogado, as pessoas ficaram com medo dele. 
A droga tira a noção de realidade.

BBC Brasil - Como foi para você encontrá-lo assim?
Oliveira - Nós conversamos, ele queria o meu livro. 
Eu vejo com uma certa dó. 
Não estou vitimizando ninguém. 
Mas são caminhos que a pessoa trilha que não têm volta.
Quem usa droga e vai para o tráfico, isso é um ponto final na vida do sujeito. 
Um sujeito como Rogério. 
Uma pobreza miserável. 
Virou ladrão. 
Começou a fumar maconha. 
Foi preso. 
Na cadeia, aceitou ajuda do tráfico. 
Se você tá na cadeia e aceita esse tipo de ajuda, tá ferrado. 
Porque quando sair de lá, tá escravo. 
Agora, se tivesse mais oportunidade para essas pessoas lá atrás, será que elas chegavam nesse ponto final? 
Será que as nossas cadeias estavam tão cheias?
Eu não faço apologia ao crime. 
Porque isso não é vida para ninguém. 
É aquela parada: pague para entrar, reze para sair. 
Eu até me emociono. 
Eu amo tanto a Rocinha. 
É um lugar tão rico e ao mesmo tempo tão miserável.

BBC Brasil - Você parou para pensar que, em outros tempos, poderia ter sido você por trás de parte daqueles tiros?
Oliveira - Eu tive momentos de déjà vu muito grande. 
Continuo tendo. 
Quando voltei para casa esses dias de ônibus, cheguei na Via Apia (na entrada da Rocinha) e pensei: "Chegamos no inferno"
Vi o rosto pesadão dos outros passageiros. 
Eu tinha essa sensação quando estava lutando para parar de usar droga. 
Em 2009, eu passava o dia no tratamento intensivo, jantava e vinha embora. 
O ônibus entrava na Rua 1 e eu pensava, "cheguei no inferno".
É muito difícil ter a sorte que tive de superar o uso de drogas, de encontrar a recuperação, de trilhar o rumo da literatura, de encontrar pessoas maravilhosas como o Júlio Ludemir e o Écio Salles, da Flup (os idealizadores da Festa Literária das Periferias). 
Isso me deu um objetivo de viver, tive um despertar espiritual. 
Isso é raro.

Desde sexta-feira, 950 homens das Forças Armadas foram enviados à Rocinha.
BBC Brasil - Mas olhando para toda essa violência, você se arrepende de ter sido parte disso no passado?
Oliveira - Eu não tenho arrependimento. 
Eu sinto é uma dó desgraçada de uma vida desperdiçada. 
Eu tinha grandes possibilidades. 
Eu tenho QI (quociente de inteligência) de 180. 
Consegui terminar a faculdade agora, fiz Enem, gabaritei a prova de redação, fiz poesia a partir da recuperação de drogas (Raquel começou a escrever durante o tratamento para superar o vício). 
Se eu tivesse tido uma estrutura familiar saudável e uma boa educação, onde eu estaria hoje?
Agora, eu não tenho arrependimento. 
Eu agi conforme a lei que eu conhecia. 
Como eu poderia ir por outro caminho, se só tinha aquela estrada ali? 
À minha volta era só aquilo. 
Não tinha como, meu bem.
Você cria a criança no meio de ladrões e quer que ela seja um empresário famoso da moda? 
Você não consegue colher coisa boa se só planta coisa ruim. 
Se só dá um caminho para a pessoa andar. 
Vai ser pedra até o fim.
Que outro caminho teria para uma pessoa que passou por tudo que passei? 
Fui até feliz. 
Consegui tirar o melhor do pior. 
Dei uma sorte ferrada. 
Eu poderia estar lá até hoje, ou ter morrido de arma da mão. 
Ter dado a vida em troca de nada. 
Porque tudo isso é uma ilusão. 
É uma guerra inútil.
O arrependimento desgraçado que eu tenho é do uso de drogas na minha vida, que acabou com tudo que eu poderia ter.

BBC Brasil - Você teve uma história muito sofrida já desde criança. 
O que te levou a se envolver com drogas tão cedo?
Oliveira - Eu tive uma infância miserável. 
Meu pai era pedófilo. 
Isso eu fui descobrir com 6 anos, mas graças a Deus ele não conseguiu consumar o ato. 
A minha mãe era passiva e eu fiquei trancada dentro do barraco. 
Ficava até uma semana trancada dentro do barraco. 
Eu tinha 6 anos.
Comecei a sair pela janela e a andar em cima dos telhados da favela. 
A gente passava muita fome. 
Cheirava cola para enganar a fome. 
A maconha já rolava entre os mais velhos e a gente passou a fumar também.
Quando eu tinha nove anos, a minha avó me vendeu para o sistema político vigente na época, que era o jogo de bicho. 
Isso era uma prática comum aqui e no Morro da Providência. 
E aí eu dei uma sorte danada. 
Pela misericórdia eu não fui transformada em prostituta nem usada sexualmente por esse homem que me comprou. 
Ele teve que me assumir como padrinho. 
Aí entra um sincronismo religioso. 
Ogum nasceu na terra e deu a ordem. 
O bicheiro era muito ligado a São Jorge, que na umbanda é Ogum. 
Eu dei essa sorte, aconteceram uns sinais.
Quando eu tinha 11 anos, ganhei a primeira arma e fui trabalhar no barracão do bicho. 
Limpava as armas, depois passei a fazer a contabilidade, registrar os pagamentos dos agiotas, das putas, ia recolher o dinheiro. 
Até os 15 anos, trabalhei intensamente para o jogo de bicho.

Escritora lembra que, na sua época, traficantes eram tratados como 'Robin Hoods' | Foto: Divulgação.
BBC Brasil - E depois você foi para o tráfico. 
Como você compara os dias de hoje à época em que você, e antes o Naldo, comandavam a venda de drogas no morro?
Oliveira - Hoje tem toda uma outra tendência. 
Aquela coisa de heroísmo, do bandido Robin Hood, isso aí não existe mais. 
Na minha época a gente era tratado como herói, pela falta absoluta de assistência pública, de qualquer tipo de apoio do estado, dentro das favelas.
Mas a história se repete. 
É uma história perpétua de luta pelo poder. 
Não é a luta pela boca de fumo, pelos pontos de venda de drogas. 
A droga você vende em qualquer esquina, vai ali no Baixo Gávea que tem gente vendendo. 
A disputa é pelo poder. 
Vai muito além. 
Na minha época era pelo território. 
Hoje é por poder econômico.

BBC Brasil - Como você recebeu a entrada das Forças Armadas na sexta-feira passada?
Oliveira - Eu tive que ir para o meio do fogo cruzado para buscar a minha neta na creche. 
Quando eu saí, estava lotado de bandido aqui na entrada. 
E eu gritando, eu vou passar nessa p*rra! 
Mais pra baixo, tinha um grupo de policiais acuados.
Com o tiroteio, a gente nem se lembrou que era aniversário da minha mãe. 
Ela mora comigo. 
Fez 88 anos no dia 22 (a sexta-feira em que os militares chegaram à Rocinha). Quando a situação acalmou que a gente lembrou. 
Caramba! 
É aniversário da velha. 
Aí compramos um bolinho e um sorvetinho na padaria e cantamos um Parabéns. 
O pedreiro já tinha começado a tapar os buracos de tiros na cozinha.
Eu agradeço muito essa tomada do Exército, foi primordial. 
Se não tivesse acontecido, não teríamos conseguido um pouco de paz, um período de rendição.
Mas fico muito triste que os militares só vieram para acudir depois que a situação chegou lá a São Conrado. 
Quando um ônibus foi incendiado no asfalto o secretário de Segurança Pública (Roberto Sá) e o (governador Luiz Fernando) Pezão voltaram atrás e admitiram que a Rocinha precisava de intervenção militar. 
Enquanto isso a gente estava aqui vivendo o terror.

'Não pode orar a Deus e pedir para a policia tomar conta, que vai virar milícia', lamenta escritora | Foto: Divulgação.
BBC Brasil - Em todos esses anos na Rocinha, você viu alguma melhora? 
Você tem esperança que as coisas melhorem no futuro?
Oliveira - Eu sou completamente cética. Não tenho esperança nenhuma de que vai acabar o tráfico de drogas. 
Sei o rumo que isso vai ter e só peço a Deus que não sejamos entregues nas mãos do Comando Vermelho (CV). 
Eu gostaria muito que a Rocinha continuasse nas mãos da ADA (Amigos dos Amigos), porque se for para o CV, o que vai entrar na favela é o crack, essa pá de cal (a ADA proíbe a venda da droga nas favelas que domina). Aí vou fazer minhas malas e sair daqui. 
Porque não quero ver o cenário de degradação que o crack traz.
A gente fica nessa situação, entre a cruz e a espada. 
E não pode orar a Deus e pedir para a polícia tomar conta, que vai virar milícia. 
Aí vai subir o morro e ter que pagar pedágio. 
Eu me sinto assim num cenário nostálgico, vendo a história se repetindo, se repetindo, se repetindo.

post: Marcelo Ferla

Continue Lendo... ►

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

O MARAVILHOSO MUNDO DOS INTENSOS…


Apesar de muitas vezes não me sentir qualificado para ter um relacionamento, tudo em decorrência de problemas pessoais do passado e, consequentemente do presente, ainda acredito no amor, nos sentimentos, na reciprocidade e na lealdade.
Acreditem mulheres, os homens também se machucam.
Por conta disto e por ser taurino (não entendo muito de assuntos do zodíaco) sou intenso por natureza, ciumento, enfim, com defeitos.
Confesso que minha intensidade já comprometeu certos relacionamentos que tive até hoje, mas é algo que estou tentando mudar, apesar de ainda não ter tido a oportunidade de aplicar meus ensinamentos terapêuticos plenamente.
Bom, chega de falar de mim, vamos apreciar este belo texto que chegou até mim através de um contato que tenho no facebook, uma linda mulher, a qual infelizmente não me recordo o nome para colocar aqui.
Confesso que ela me surpreendeu, haja vista que as mulheres com todo este movimento de independência estão agindo no sentido de um protecionismo que muitas das vezes acho exagerado, principalmente se este vier carregado de preconceito e generalismos do tipo: 
"Os homens são todos iguais, uns cafajestes e canalhas.".
Mas ela, este meu contato não. 
Ela compartilhou o texto e deixou-me com a boa impressão de que muitas mulheres ainda acreditam que remar contra essa maré vale a pena.
Mesmo assim, infelizmente as mulheres expressam mais suas opiniões e conclusões sobre relacionamento no sentido do não, o que demonstra claramente que estas não andam querendo tentar muito algo novo.

Curta o texto, espero que seja esclarecedor.

O MARAVILHOSO MUNDO DOS INTENSOS…
Estela Meyer

Ser intenso é ser mais do que inteiro. Mais que completo.
É ser transbordante. Abundante.
Eu acho lindo quem não admite ser raso.
Quem se entrega, se doa, quem faz e acontece.
Quem encara um desafio só pelo gostinho, quem sai da platéia e vai ser jogador.
Quem se joga e quem joga, até descalço.
Não importando que faltem 10 minutos pra acabar a partida.
Gosto de gente que enfrenta, que luta, que argumenta, que esgota até dizer chega.
Admiro quem não se cala, quem tem palavras de sobra, quem inventa moda e não sossega.


Gosto da bravura, da luta, da lágrima. 
Me encanto com pessoas e verdades inteiras, sem vírgulas, sem traços, sem “se”.
Adoro surra de like, surra de áudio, surra de beijo.
Gosto de firmeza. Nas promessas, palavras e apertos de mão.
Os abraços, gosto mesmo daqueles de verdade, os generosos, os de faltar o ar, os quebra-costela.
Rir até doer a barriga.
Dançar até doer o pé.
Experimentar, ousar, explorar, movimentar, mergulhar. Adoro.


Adoro quem faz questão, quem tenta até o último suspiro e quem suspira de tanto tentar.
Adoro corações transbordantes e mesas fartas.
Não é o simples exagerar, desperdiçar, esbanjar. 
Mas é além do completar, sustentar, abastecer. 
Algo que flutua entre esses dois universos, onde jamais se passa fome nem vontade.
Tom pastel, monotonia, tofu e meias porções nunca me serviram bem.
Intensidade aqui meu caro, é prato cheio.

post: Marcelo Ferla
texto: Estela Meyer

Continue Lendo... ►