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domingo, 1 de junho de 2014

Lugares.


Plitvice Lakes: Nunca tinha visto algo igual…
Do Rio pro Mundo
Nossa viagem pelos balcãs começou com a chegada em Zagreb, por volta das 15 horas, em um dia nublado de maio, provenientes do voo 864 da TAP, desde Lisboa com escala em Bologna. Tão logo nos livramos dos trâmites burocráticos aeroportuários, retiramos o carro previamente alugado e, munidos de um GPS já trazido do Brasil, rumamos sentido sudoeste na direção de nossa primeira escala, onde chegamos ainda com a luz do dia, apos 1 h e 30 min por uma estrada que se apresentou em ótimas condições, mais ou menos na metade do caminho entre a capital e a cidade de Zadar na costa norte Dálmata.
ps: Karine, uma vez mais, obrigado por todas essas belas fotos da sequência.



Os Lagos Plitvice, ou Plitvicka Jezera, como denominados no idioma croata, estão desde 26 de outubro de 1979, merecidamente figurando na Lista dos Patrimônios Mundiais da Humanidade pela Unesco. Isso já demonstra todo o apelo turístico deste sítio natural. Mas vou além e afirmo, que se dentro dessa seleta lista pudessem ser selecionados apenas os 5 locais mais impressionantes em todo o globo, os lagos figurariam no Rol.

Um espanto! Pra mim foi algo sem precedentes. Uma visita extraordinária, absolutamente imperdível, destacada e muito diferente da maioria das coisas já vistas por um reles mortal. Se tivesse apenas um dia e pudesse visitar somente um lugar na Croácia, escolheria esse, pelo seu ineditismo.



Uma profusão de cores quase cegante, estimulada por diversas micro tonalidades de verde esmeralda e azul turquesa, distribuídas harmoniosamente em doses sucessivas de deslumbramento e incredulidade, formando mosaicos inacreditáveis, compostos de lagos de águas transparentes como um espelho, cachoeiras muito altas, altas, médias e baixas, quedas d’água, rios de água corrente, algumas grutas e trilhas, tudo permeado por uma sublime vegetação muito bem preservada e em total sintonia com os demais elementos. (Primeira foto abaixo da sensacional caverna/gruta de Supljara, na parte baixa, próxima a entrada nº1.)




O tanto que se lê e que se ouve sobre as maravilhas desse lugar está de pleno acordo com o que se encontra.

Não há qualquer exagero. Muito pelo contrário. O imenso Parque Nacional dos Lagos Plitvice parece uma realidade virtual, um cenário de filme de ficção cientifica, tipo avatar, ou algo similar ao ambiente daqueles desenhos animados que mostram mundos onde habitam fadas, duendes, gnomos e elfos. Só mesmo vendo pra compreender. 

Sendo assim, só me resta tentar explicar e retratar esse local para os leitores da forma mais fidedigna possível, com as inevitáveis limitações impostas pelo alcance restrito das fotos e das palavras, por mais expressivas que elas possam ser. A meu favor, a certeza cabal que não precisarei me esforçar muito para demonstrar o que alego.

Então vejamos:


Pois bem, para quem quer visitar os lagos, existem várias opções de roteiros. As mais comuns, propõem excursões de dia inteiro, fáceis de contratar em varias agências locais que disponibilizam ônibus ou vans partindo pela manhã de Zagreb, Split, Zadar, etc, com retorno à cidade de origem no final do dia. Nesses casos, descontando-se os trajetos de ida e volta, cuja distância variará conforme a cidade de partida, quem opta por essa alternativa acaba tendo pouco mais de 4 ou 5 horas para conhecer o Parque. Muito pouco! Insuficiente mesmo.

Acredite. Vai ficar aquele gosto meio amargo na boca de “quero mais”. Sei que 4 horas é bem melhor do que nada, mas penso que para uma satisfatória noção geral deste monumento natural, a pessoa precisará de, no mínimo, umas boas 8 horas.


Por isso, sugiro de maneira enfática que o visitante passe ao menos uma noite em um estabelecimento estalajadeiro nas cercanias. Foi o que fizemos. Na verdade, passamos 2 noites. Isso permitirá uma visita de dia inteiro ao parque, maximizando o êxito da experiência.

Opte pelo day-tour proveniente de outra cidade apenas se não tiver mesmo outra alternativa e se o seu tempo estiver muito escasso e a viagem toda cronometrada. Se o tempo for realmente curto, sugiro até que corte alguma outra cidade e priorize a visita completa aos lagos.

Fique hospedado por uma ou duas noites. Você não se arrependerá. Nós ficamos no Hotel Jezero, excelente opção para explorar os Plitvice, pois fica situado bem ao lado da entrada Central, a de número 2 (dois).

Chegamos no final de um dia, fizemos uma refeição adequada, descansamos, dormimos e, no dia seguinte, estivemos em tempo integral no parque, pernoitando novamente no hotel e partindo para a próxima escala na manhã subsequente. Acertamos em cheio na escolha. (Se tivéssemos mais tempo disponível, cogitaria até mesmo passar mais um dia visitando o parque).



Esta é de longe a melhor alternativa. E o Hotel Jezero, com preços relativamente em conta, embora precisando de uma modernização geral, atende bem às necessidades dos viajantes, dispondo de escritório para câmbio de dinheiro, um bom desjejum, pessoal de apoio qualificado e um enorme refeitório onde no final do dia eles servem jantar com um ótimo menu à lá carte para centenas de turistas exaustos da maratona enfrentada.

Isso sem contar o seu trunfo principal, a localização.

Dessa forma, a maior vantagem de se hospedar nos arredores está em poder chegar ao interior do parque em uma horário mais cedo, (abre as 8 horas) evitando assim os formigueiros humanos que serão despejados mais tarde (por volta das 11 horas) pelos ônibus e vans das agências de turismo, notadamente no verão.


Os Lagos Plitvice, assim denominados, são um conjunto de 16 (dezesseis) lagos transparentes e cristalinos, com múltiplas represas e formações de aparência mármore travertino, formadas por uma rocha porosa, que se consolida através de um lento e contínuo processo de sedimentação do carbonato de cálcio presente na água. 

Essas barreiras ou represas, cujo formato está sempre em transformação, estão conectadas por dezenas de fantásticas cachoeiras, umas maiores, outras menores.

Ao longo dos séculos, portanto, a água tem esculpido essas formações e, simultaneamente, depositado ainda diversos minerais no fundo da água e que, também sedimentados, conferem ao local a vasta gama de inacreditáveis formas e tonalidades.

A cor dos lagos também muda constantemente, tendo na maioria do tempo um tom turquesa, que pode cambiar para verde-jade ou cinza, dependendo da quantidade de minerais sedimentados no fundo das águas, de micro-organismos, da chuva e até do ângulo de incidência do sol.

Por outro lado, certas plantas aqui crescem umas por cima das outras, formando barreiras naturais e criando cascatas.

Essa interação harmônica desse ecossistema ocorre sem qualquer perturbaçao ou modificação relevante desde o fim da última era glacial.

Como se vê, a natureza aqui caprichou, embora tenha levado tempo…

A existência do parque nessas condições tão peculiares, decorre de um conjunto de fenômenos naturais e biológicos encontrados em pouquíssimos outros lugares no planeta Terra. Daí a razão de ser um local tão surpreendente e inédito. Sem dúvida o principal destino turístico do país junto com Dubrovnik.

O parque foi o primeiro parque nacional dos oito atualmente existentes na Croácia, criado em 1949 e, desde o princípio, foi um destino turístico bastante popular na antiga Iugoslávia.

Apesar de localizado no interior da Croácia, está a menos de 100 quilômetros do litoral, com um clima bastante instável, não sendo impossível que, em determinados dias, os visitantes se deparem com chuva, neblina e sol de forma intermitente e simultânea.

Abaixo, foto da karine tirando uma foto e da foto que ela tirou:

  
Geralmente, as temperaturas são amenas e o clima se apresenta úmido, com noites quase sempre frias, mesmo nos meses do verão. Pela densidade e riqueza da vegetação, as chuvas também acabam sendo frequentes ainda que, na maioria das vezes, fugazes.

No inverno, entretanto, faz um frio intenso e a paisagem se modifica radicalmente quando os lagos e as cachoeiras ficam então congelados, criando um cenário gris e desolador, conquanto belo, ainda que sob uma outra perspectiva.

Torça por um dia de sol e claridade. Isso fará uma grande diferença. Cabe acrescentar, que a região é cercada por uma rica e densa mata, quase uma floresta, com robusta vegetação.

Para ilustrar a informação sobre a grande riqueza e a diversidade da fauna e da flora local, sabe-se que, até os dias atuais, já foram catalogadas cerca de 1267 espécies distintas de plantas, sendo que 75 delas endêmicas, além de 55 espécies distintas de orquídeas. Por outro lado, em relação aos animais, destaque para as mais de 321 espécies de borboletas, 118 de pássaros e 21 de morcegos. Sapos e peixes, principalmente a truta (que não pode ser pescada no lago) também se destacam entre os habitantes nativos.

Dentre os mamíferos carnívoros, o símbolo maior do parque, o urso marrom, (57 deles habitam nas redondezas) de proporções ferozes e avantajadas. Felizmente, não nos deparamos com nenhum no dia de nossa visita.


Na Páscoa de 1991, os primeiros disparos da guerra travada entre a Croácia e a Sérvia foram proferidos exatamente nesta região, tendo o local, inclusive, permanecido sob custódia Sérvia, e praticamente fechado ao turismo até o ano de 1995. Nesta ocasião, os cidadãos de origem croata foram expulsos das cercanias e forçados a migrar para a costa, vivendo como refugiados. 

Paradoxalmente, esse hiato permitiu uma ampla regeneração do ecossistema local, desgastado que estava por décadas de atividade turística nem sempre ecologicamente responsável.


Hoje em dia, a guerra é apenas uma lembrança remota e milhares de visitantes passam anualmente pelos Plitvice.

A visitação e o trânsito de pedestres no local se torna viável mediante um sistema de trilhas e passarelas de madeira muito bem sinalizadas que cortam suas duas regiões maiores, e passam pelos pontos altos e as principais atrações, possibilitando aos visitantes uma total imersão, devidamente integrada no seio do ecossistema, por vezes chegando a permitir que a pessoa caminhe quase embaixo de cachoeiras, sentindo toda a força e a energia vital gerada pelas volumosas massas de água.

(A foto abaixo confere uma boa amostra da imensidão do local. Vejam o tamanho das pessoas em uma passarela na parte inferior esquerda do quadro defronte a mais alta cachoeira da Croácia, a Slap Veliki. Parecem formigas)

O mergulho nos lagos, por óbvio, é terminantemente proibido. Ônibus que realizam rotas circulares entre as três entradas e botes que possibilitam a travessia pelo grande lago que une a parte alta à parte baixa, complementam as possibilidades de fácil deslocamento por este grandioso sítio natural de proporções quase bíblicas.

Vale ressaltar que esses meios de transporte de apoio acima citados, funcionam de modo elétrico, evitando assim um indesejável adendo de poluição, que decorreria da queima contínua de combustível. Tudo bem ecológico e politicamente correto.

O parque possui 3 entradas principais. A de nº1 na parte baixa, a de nº2 no meio, bem em frente ao Hotel Jezero, e a entrada nº3 na parte alta. (abaixo uma foto do mapa facilitará a compreensão) Nossa exploração se deu da seguinte forma: Pegamos o ônibus elétrico às 8 e 30 em frente a entrada 2  (que por sua vez, como já disse, ficava defronte a nosso hotel) e fomos conduzidos até a entrada 1, num trajeto de menos de 5 minutos. 

Iniciamos então a exploração pela entrada 1, que fica à direita do mapa e contempla a denominada parte baixa, onde, entretanto, localiza-se a maior de todas as quedas d’água. (primeira foto abaixo , a imperdível e espetacular Slap Veliki, a mais alta do país, com uma queda de cerca de 78 metros).

Após ficarmos quase uma hora contemplado a grande queda, caminhamos pelas trilhas deste lado até chegarmos ao grande lago, onde a pessoa deve apanhar o barco de ligação entre as duas grandes áreas, a de baixo, onde estávamos, e a de cima, para onde iríamos.
  
Explorar os plitvice é bastante simples e você somente precisará de tempo. Os caminhos e trilhas são muito bem sinalizados e não há o que errar, a menos que a pessoa se esforce muito.

Não há necessariamente uma única ordem para a visitação, pode-se começar por cima, pela parte alta (entrada 3 – marcada com um triângulo no mapa abaixo) e depois pegar o barco no grande lago para a parte baixa ou vice versa. Nada impede também que a visita se inicie pela entrada nº 2 (marcada com um círculo na foto abaixo) e a pessoa pegue de cara o barco para a parte baixa, sendo que após, poderá apanhar o ônibus elétrico na entrada nº 1 (marcada com um quadrado na foto abaixo), até a entrada 3 lá na parte alta e finalizar a visita na entrada 2, que fica no meio.

O que não se pode deixar de ter em mente, é que para uma visitação completa e minimamente pausada do parque, são necessárias 3,5 a 4 horas para cada uma das duas metades, a parte alta e a baixa. Se não entendeu bem essa minha explicação, leia novamente este parágrafo acompanhando com a Foto abaixo do ingresso com o mapa:

Dica muito importante: o Parque não conta com uma boa estrutura em termos de locais para “reabastecimento”, banheiros e alimentação em geral. Talvez esta seja a única grande falha do lugar. 


Os poucos restaurantes/lanchonete disponíveis, servem uma “Junk Food” de baixa qualidade. Por isso, convém levar uma mochila com garrafa de água ou suco e alguns alimentos mais saudáveis que possam ser consumidos na hora que a fome apertar.

Além disso, vá ao banheiro quando estiver próximo a uma das 3 entradas ou quando eventualmente encontrar algum, pois provavelmente não será tarefa simples achar outro quando estiver precisando. Fica então a sugestão.

Ao final, conseguimos fazer o passeio completo ao longo de magníficas 8,5 horas de deleite e contemplação, que pareceram passar em apenas 10 minutos. Essa percepção distorcida do tempo, provavelmente foi efeito de um feitiço misterioso, impregnado em nosso corpo e nossa mente de forma muito discreta e sutil por alguma criatura mágica que habita esse lugar tão único e especial.

Vá lá você também e confira com seus próprios olhos. É de chacoalhar as convicções de qualquer ateu e forçar uma admissão de que Deus existe, e somente Ele pode ter criado um lugar assim. Prepare-se para uma experiência sublime.

Chegamos famintos, exaustos e extasiados no hotel. Fizemos uma ótima refeição no restaurante, arrumamos as malas e dormimos. Afinal, no dia seguinte partiríamos para Zadar…

Marcelo Ferla

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