No Supremo, consolida-se a
impressão de que os três ministros da 2ª Turma combinaram “limpar a pauta”.
Ou
seja, montaram uma articulação destinada a rever o máximo de condenações e
decisões possíveis enquanto dominam o quórum.
Ciente do quadro favorável, o
ex-presidente Lula ingressou na quinta-feira 28 com um pedido para lá de
esdrúxulo.
Por meio do advogado Cristiano Zanin apresentou um novo requerimento
a fim de que a segundona do STF atropele o relator da Lava Jato, ministro Edson
Fachin, e retome o julgamento de seu pedido de liberdade.
Fachin havia decidido
enviar ao plenário o julgamento sobre a validade ou não a soltura de Lula.
Para
dar celeridade, e evitar um novo golpe, descartou até a opinião do Ministério
Público.
Cabe agora à ministra Cármen Lúcia, presidente da corte, definir a
data.
Lá, com o time completo, os 11 em campo, a história em geral é outra:
Lula já foi derrotado pelo placar apertado de 6 a 5.
Na 2ª Turma, as chances do
triunfo na peleja são imensamente maiores, por óbvio.
Para Zanin “o pedido de
liminar deverá ser analisado por um dos ministros da 2ª Turma do STF, conforme
prevê a lei (CPC, art. 988, par. 1o)”.
Resta saber se Lewandowski e companhia
terão a audácia de passar a patrola sobre o colega.
Mais um 7×1 contra o brasil
Se o fizerem, há
consideráveis chances de êxito, como se viu na terça-feira 26, quando Fachin
viveu seu dia de 7 a 1, só que pelo lado dos derrotados.
Primeiro, os três
ministros decidiram anular provas colhidas na Operação Custo Brasil, um desdobramento
da Lava Jato em São Paulo, que apura desvios de pelo menos R$ 40 milhões no
Ministério do Planejamento com a participação da senadora Gleisi Hoffmann
(PT-PR) e seu marido, o ex-ministro Paulo Bernardo.
Por 3 a 1, a Turma acolheu
um pedido da defesa de Gleisi, que questionava a realização de buscas e
apreensões no apartamento funcional da senadora em Brasília.
Os ministros
argumentaram que um juiz de primeira instância não poderia determinar a busca
em um imóvel funcional sem aval do Supremo.
Lewandowski teceu duras críticas à
operação:
“É um absurdo um juiz de primeiro grau determinar busca em
apartamento de uma senadora.
Isso é inaceitável”.
A decisão, porém, beira o
surrealismo ao instaurar uma espécie de “foro privilegiado em imóveis
funcionais”, ou seja, apartamentos que só podem ser alvos de buscas com
autorização do Supremo.
“Novidade jurídica: foro privilegiado de imóveis”,
ironizou a procuradora da Lava Jato no Paraná, Jerusa Viecili.
A Operação Lava
Jato está concretamente ameaçada.
STF deve ser o guardião da Constituição e não
da injustiça e impunidade.
“Enquanto todos secavam a Argentina, a maioria da 2ª
Turma faz 7 a 1 contra a Lava Jato.
Ops, não marcamos nem mesmo um”, lamentou o
decano da Lava Jato, Carlos Fernando Lima.
O convescote de Dirceu
Na mesma sessão, Gilmar,
Toffoli e Lewandowski confirmaram a soltura do lobista Milton Lyra, apontado
como operador do MDB.
Em seguida, decidiram ir contra o entendimento do
plenário da Corte, que autoriza a prisão após condenação em segunda instância,
e soltaram o ex-tesoureiro do PP, João Claudio Genu, e o ex-ministro José
Dirceu.
Ambos já foram condenados pelo TRF4, mas restou entendido que as penas
ainda poderiam ser revistas por recursos pendentes.
Entre a decretação de sua
prisão pelo juiz Sergio Moro e a soltura pelo STF, Dirceu passou menos de 40
dias preso na Penitenciária da Papuda, em Brasília.
Na quarta-feira 27, o
petista promoveu um animado convescote em sua residência, no Sudoeste, região
nobre de Brasília, durante o jogo do Brasil, regado a cerveja e petiscos
variados.
A sessão continuou com mais
resultados que levam os brasileiros a crer que criminosos poderosos recebem
tratamento diferenciado no Poder Judiciário.
Para o procurador Deltan
Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Lava Jato no Paraná, “os ministros
Gilmar, Toffoli e Lewandowski desrespeitaram a autoridade do plenário do STF,
que autorizou prisão após decisão de segunda instância.
Tentaram disfarçar, mas
a violação é clara.
Caso se exigissem requisitos de prisão preventiva (que
aliás estão presentes), não seria execução provisória”.
O ministro Marco Aurélio
mandou soltar até Eduardo Cunha, mas o ex-deputado permanece na cadeia por
conta de outras ações
Na tarde de quinta-feira 28
foi a vez do ministro Marco Aurélio Mello mandar soltar outro preso de alto
calibre: o ex-deputado e ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha.
Mas como ele
coleciona mandados de detenção, em ações às quais responde por corrupção e
lavagem de dinheiro, Cunha permanece na cadeia, onde se encontra desde outubro
de 2016 por decisão do juiz Sergio Moro.
Como se nota, Fachin ao lado
de Cármen Lúcia tornaram-se ilhas de resistência, em meio ao libera geral que
equipara certas togas ao que há de pior no Legislativo e Executivo, onde
imperam fichas-sujas.
No Judiciário, descobre-se agora, coabitam os togas sujas
– aqueles que preferem sujar as próprias mãos e a indumentária de ministro a
aplicar a lei.
O Brasil não é a terra da
pizza, seus traçados não formam uma bota, mas está cada vez mais parecido com a
Itália.
Lá, como aqui, tudo começou quase por acaso puxando o novelo de um
escândalo menos estrepitoso de corrupção político-empresarial que envolveu o
líder dos socialistas de Milão, Mario Chiesa.
Ele aspirava à prefeitura da
cidade e exigia dinheiro sujo das empresas em troca de concessões de obras
públicas.
Foi então que um grupo de juízes, liderado por Antonio Di Pietro, uma
espécie de Sergio Moro italiano, descobriu que a corrupção era como cupim a
carcomer o sistema político como um todo.
Como na Odebrecht, foram encontradas
planilhas com as cifras oferecidas a partidos e políticos.
Praticamente todos
os partidos políticos teciam a grande e intrincada teia da corrupção, embora
quem operasse os fios da corrupção fosse o Partido Socialista (PSI) que, com
Bettino Craxi, havia alçado pela primeira vez ao poder.
Entre as centenas de
políticos condenados, Craxi e seu partido representaram a alma do esquema.
O
líder socialista acabou condenado a 17 anos de prisão, mas desertou para um
exílio na Tunísia, onde terminou seus dias.
Também lá, como aqui, Craxi atacou
com virulência os juízes e posou de perseguido político.
A trama foi revelada
como um câncer comandado por um partido a infestar a classe política, mas
degenerou em frustração para os italianos e na aprovação de leis que
neutralizaram as punições aplicadas pela Justiça.
O risco, aqui, se impõe a
partir do comportamento de próceres do Supremo.
“Infelizmente, o cenário é
muito preocupante porque a similitude com o que ocorreu na Itália com o que
está ocorrendo aqui é muito grande.
As reações da classe política lá são
exatamente as mesmas reações da classe política aqui.
As frases são iguais.
É
impressionante.
O ‘Judiciário quer criminalizar a política’ é uma expressão
usada lá e depois usada aqui”, lamentou Rodrigo Chemim, procurador de Justiça
do Ministério Público do Paraná, para quem a população está meio saturada de
ouvir falar em escândalo.
“E aí é o momento que os políticos aproveitam para
aprovar leis que no final de contas neutralizam os efeitos da investigação”.
Joaquim Falcão e o peso da
palavra intermediária: “isso torna o País juridicamente inseguro”, diz ele
Em setembro, quando Toffoli
sair de campo e adentrar aos gramados Cármen Lúcia, a tendência hoje ali
favorável aos réus tende a se inverter.
Cármen, Fachin e Celso de Mello
passarão a formar a maioria que hoje está nas mãos de Toffoli, Gilmar e
Lewandowski.
O que preocupa a todos é a insegurança jurídica que esse clima de
guerrilha traz, com decisões sendo modificadas apenas por conta da composição
que detém a maioria nas turmas.
Como escreveu o professor de Direito
Constitucional Joaquim Falcão, o que pesa hoje no STF não é tanto “a palavra
final”, do plenário, mas a “palavra intermediária” das turmas e dos ministros.
As diversas mudanças de decisões são perigosas.
“Isso torna o País inseguro
juridicamente”, considera Falcão.
Por isso, a dança de cadeiras no foro
restrito é considerada mais importante que a chegada de Toffoli à Presidência
da corte.
Mesmo no comando do STF, ele preside um colegiado.
Não pode agir
contra a maioria.
Seu poder concentra-se mais na definição da pauta.
Como hoje
as seções intermediárias do Supremo têm sido mais importantes, é na 2ª Turma
que a Lava Jato e o processo de saneamento do País nutrem tempos de esperança.
Se até setembro a tríade libertadora não colocar tudo a perder.
post: Marcelo Ferla
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