O
(novo) feminismo já deu no meu saco
O discurso contraditório e
incoerente das novas feministas: lugar de mulher é onde ela quiser, desde que
seja um lugar aprovado por elas.
Por Mônica Montone
 |
Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.
|
Honestamente falando?!
Esse
papo de feminismo deu absurdamente no meu saco.
Estou começando a sentir
repulsa pelo assunto.
Não porque “a grande causa”
(combater o machismo) não seja nobre, tampouco porque não há o que conquistar
pelas mulheres, mas por conta da grande incoerência – e/ou contradição- que
permeia o discurso das feministas “contemporâneas”.
Mulheres passaram a
perseguir mulheres, a ditar regras, a dizer o que é certo e errado.
O discurso
“lugar de mulher é onde ela quiser”, por exemplo, é puro jogo de linguagem
porque se uma mulher hoje em dia ESCOLHER parar de trabalhar para cuidar dos
filhos ela estará frita!
No mínimo será tachada de vítima do sistema, inocente
útil da cultura falocêntrica, alguém que não ESCOLHEU isso, mas que reproduz, como
um robô, o que lhe foi ensinado.
Ou seja?
Se você não age de
acordo com “a cartilha” das “novas feministas” é considerada uma acéfala sem
autonomia.
Ao ler na Carta Capital que
uma feminista propôs um boicote ao novo disco de Elza Soares, “Mulher do fim do
mundo”, alegando que o mesmo fora produzido por um grupo de homens machistas,
pensei:
“Não é possível, isso deve ser jogada de marketing da gravadora para
causar um buchicho em torno do disco”.
Mas, ao que tudo indica, isso de fato
aconteceu.
Se esse é o critério, bem,
então devemos jogar na fogueira todos os livros do Bukowski, Hemingway, Henry
Miller, Sartre e tantos outros.
Quando a arte passa a ser
julgada não por seu valor e conteúdo, mas por quem a produz, é porque perdeu
uma de suas funções primordiais: alargar nossa visão de mundo; alongar pernas e
braços da nossa alma.
Dia desses uma “nova
feminista” veio me dizer que as roupas que uso, bem como as fotos sensuais que
publico, visam satisfazer os olhos gulosos dos homens e reforçam o machismo e o
lugar da mulher como objeto.
E completou: “Justo você, uma escritora?!”
Se o julgamento da moça não
é machista e extremamente preconceituoso, então, definitivamente, eu não sei o
que é machismo, nem preconceito.
Elas não entenderam que eu falava de escolhas,
autonomia, independência e emancipação emocionais, liberdade – coisas que para
mim são extremamente mais importantes do que refletir se devo aprender a
cozinhar ou não.
Não entenderam que se
tratava de uma grande ironia, que o que eu estava chamando de “fêmea” era
justamente o que feministas percussoras e admiráveis como Leila Diniz e Simone
de Beauvoir propunham: a busca pela liberdade e pela emancipação emocional
feminina.
Conheço diversas
“feministas” que lutam contra o tal do machismo, mas são incapazes de ir ao
cinema sozinhas, sentem vergonha do que os outros vão pensar ou dizer.
Que se
entopem de antidepressivos quando levam um fora porque não conseguem lidar com
a frustração.
Que transam com qualquer idiota somente para provar para elas
mesmas que são livres sexualmente, porém choram depois, num domingo qualquer,
porque no fundo gostariam de ter alguém para ir ao cinema de mãos dadas.
Que
não toleram a própria companhia, são incapazes de ficar em casa num sábado à
noite, assistindo Netflix, sem se sentirem fracassadas e abandonadas.
Que lutam
por trabalhos que não desejam simplesmente para manter um certo status.
Que sentem
um medo terrível de perderem o amor de suas vidas e por isso acabam fazendo
tudo o que o mozão quer.
Na boa?!
Acho que seria
muito mais útil para as mulheres se elas refletissem e discutissem sobre seus
medos mais profundos do que abrir grupos de discussão sobre “usar sapato de
salto ou não”, “depilar ou não depilar”, “cozinhar ou não cozinhar”, “usar
maquiagem ou não usar”.
Porque somente quando
estamos conscientes dos nossos medos, quando os encaramos de frente e tentamos
transcendê-los é que nos fortalecemos e nos tornamos fortes, seguras e
emancipadas.
Sim!
O machismo é um grande
problema e deve ser combatido, discutido.
No entanto, talvez seja mais
importante – e produtivo – nos tornarmos seres emancipados emocionalmente do
que combater o machismo, pois somente quando deixamos de ser reféns, vitimas de
nós mesmos, é que conseguimos lutar seja lá pelo que for.
Existem questões
importantíssimas a serem reavaliadas pela “mulher de hoje” como, por exemplo, a
maternidade.
Pouco se fala sobre isso, o assunto ainda
é tabu e sempre acaba em confusão quando é levantado.
Conclusão?
Zilhões de
mulheres sofrendo, angustiadas, reféns de suas emoções conflitantes e da
pressão social.
Querem outro assunto que
penso que deveria ser tratado com mais naturalidade e afinco?
A masturbação
feminina.
Eu poderia elencar uma lista
enorme de temas por aqui, de assuntos que seriam de grande valor para a
reflexão da questão do feminino na atualidade.
Mas o que acontece?
As
“novas feministas” estão obcecadas com o machismo, estão mais interessadas em
proibir que outras mulheres apareçam de shortinho em comerciais de cerveja,
mesmo que elas tenham escolhido isso e adorem exibir seus corpos.
Outro grande equívoco, outra
grande confusão que as “exorcistas do machismo” cometem é confundir misoginia
com machismo, ervas-daninhas que estão interligadas, mas não são a mesma coisa.
Muitas delas, aliás, nem sabem o que é misoginia – praga que pode destruir
muito mais a autoestima de uma mulher e prejudicar imensamente sua saúde
emocional do que um “fiu-fiu” na rua.
A meu ver só existem duas
formas EFETIVAS de acabar com o machismo:
1) Ensinando nossas crianças
a não serem machistas;
2) Sendo emancipada
emocionalmente.
Uma pessoa emancipada
emocionalmente sabe exatamente o que quer, quem é, onde quer chegar.
Sabe dizer
“não”, sabe ouvir “não” sem se melindrar; faz escolhas conscientes e não
lamenta as perdas decorrentes dessa escolha, conhece os próprios limites e tem
as rédeas da própria vida e das próprias emoções nas mãos.
E quem possui essas
características não precisa exigir respeito: ele acontece naturalmente, se
impõe.
A palavra de ordem do
momento é “empoderamento”.
Pois bem, enquanto esse empoderamento não for de
dentro para fora, ele nunca acontecerá.
Não é a sociedade, a cultura, os homens
que devem fornecer ingredientes para que o bolo do empoderamento seja assado.
Acreditar que o empoderamento só será possível e viável quando a sociedade
mudar, quando os direitos forem iguais, quando o machismo acabar, etc, etc,
etc, é se colocar em situação passiva, de vitimização.
É aquela velha história:
quer mudar o mundo?
Comece por você!
Nota de rodapé
Uso a nomenclatura “nova
feminista” entre aspas justamente para deixar claro que não estou
desvalorizando o movimento feminista e suas conquistas; que o considero
importante, sim, mas que percebo um desvirtuamento da proposta “original” e um
radicalismo equivocado, bem como um discurso contraditório que em nada ajuda a
refletir e transformar as questões acerca do feminino.
Texto publicado
originalmente em Obvious.
post: Marcelo Ferla
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Deixe sua opinião.