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quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Acontecimentos.


Exposição excessiva a imagens do 11/9 provoca estresse pós-traumático nos EUA.
E. Alison Holman
Estudo conclui que exposição midiática pode aumentar impacto de eventos traumáticos e induzir sintomas do distúrbio.


Em 11 de setembro de 2001, eu estava na África Subsaariana com acesso limitado às notícias e à televisão. Naquela tarde, quando visitei uma casa que tinha uma televisão funcionando, vi um avião colidindo com as Torres Gêmeas. No começo, pensei que era um filme de Hollywood – até as imagens horríveis serem continuamente repetidas. Mais tarde, não conseguia parar de pensar no que tinha visto naqueles breves momentos: um avião colidindo com as Torres Gêmeas e explodindo; alguém pulando do World Trade Center; pessoas fugindo de prédios desmoronando.
Sou uma pesquisadora que estuda como as pessoas lidam com traumas, com foco nas primeiras semanas após o evento traumático. Trabalhei com muitas pessoas que vivenciaram traumas – de vítimas de abusos sexuais por familiares a pessoas afetadas pelos incêndios de Laguna Beach e Malibu em 1993. Um sintoma grave do transtorno do estresse pós-traumático (TEPT) é a recordação do evento – pensamentos intrusivos e imagens que surgem em sua mente, causando um reavivamento do trauma. Com as imagens dos ataques às Torres Gêmeas se reprisando em minha mente, decidi que tinha que estudar como os americanos estavam lidando com o 11 de setembro.
Algumas semanas depois do atentado, iniciei um estudo nacional com colegas da Universidade da Califórnia (Dra. Roxane Silver, Dr. Michael Poulin e Dra. Virginia Gil-Rivas) e da Universidade de Denver (Dr. Daniel McIntosh). Estruturamos uma pesquisa on-line para mensurar como uma amostra nacional de mais de 2.700 pessoas – moradores de todos os estados norte-americanos, representantes da população do país – estava lidando com os ataques terroristas. Poucas semanas após o 11 de setembro, fizemos várias perguntas aos participantes da pesquisa, sobre seus níveis de estresse e seus relacionamentos sociais, e sobre o medo de um novo ataque terrorista. Fizemos outras seis pesquisas durante os três anos seguintes para que pudéssemos analisar as respostas durante aquele período de tempo.

O fotógrafo Bill Bigart tirou sua última foto às 10:28 da manhã do 11 de setembro de 2001; ele morreu minutos depois sob os escombros da Torre Norte.


Uma das descobertas mais surpreendentes do estudo foi que as pessoas que assistiram quatro ou mais horas diárias de notícias televisivas relacionadas ao 11 de setembro na semana seguinte aos ataques tiveram um aumento nos sintomas do TEPT naqueles três anos. Assistir de uma a três horas diárias de cobertura jornalística sobre o 11 de setembro também aumentava o risco de apresentar um dos sintomas característicos do TEPT: flashbacks, ansiedade, paranoia e o impulso de evitar qualquer lembrança concernente ao trauma.
Estas descobertas e os estudos pós-11 de setembro sugerem que a exposição midiática pode aumentar o impacto do evento traumático para além das áreas afetadas. Isso contradiz a sugestão de muitos especialistas – de que a exposição indireta pela mídia não é clinicamente relevante em relação ao trauma para o público em geral. A definição da Associação Psiquiátrica Americana para transtorno do estresse pós-traumático também deixa claro que somente os indivíduos que experimentaram o trauma diretamente – ou pessoas cujos amigos e familiares experimentaram o trauma de modo direto – são considerados como “expostos” ao trauma. Sem essa “exposição”, o estresse grave ou os sintomas do TEPT experimentados não são considerados especialmente significativos para o bem-estar geral do indivíduo. Enquanto há estudos que analisam como terapeutas e trabalhadores de emergência são afetados pela exposição indireta ao trauma por meio de suas responsabilidades profissionais, há pouco interesse em se estudar como a cobertura midiática de massa propaga involuntariamente impactos negativos de traumas coletivos para além das comunidades afetadas de modo direto.


A relevância da exposição indireta da mídia foi evidenciada mais uma vez após a Maratona de Boston, em abril passado. Nos dias posteriores ao atentado, alguns colegas e eu aplicamos novamente nosso estudo do 11 de setembro, usando a exposição da mídia no atentado da Maratona de Boston. Desta vez, estendemos a pesquisa a todos os tipos de mídia: perguntamos quanto tempo as pessoas passaram em frente à televisão, se ficaram expostas a notícias relacionadas ao desastre por meio do rádio, das notícias on-line e impressas e por quanto tempo usaram mídias sociais como Facebook, Twitter, YouTube e Vimeo na semana seguinte ao atentado. Estávamos interessados em saber como as mídias sociais podem ter tornado menos clara a linha entre ficção e realidade. Diferentemente de como a mídia tradicional nos avisa sobre a natureza terrível de uma imagem antes de mostrá-la, a mídia social mostra essas imagens sem nenhum pré-aviso.
Nós também comparamos a exposição direta ao atentado à indireta, feita por meio da mídia – essas diferentes formas de exposição levaram a um estresse maior ou menor? Duas semanas após o bombardeio, iniciamos outro estudo via internet com a participação de mais de 4.600 pessoas de todo o país – incluindo cerca de 850 pessoas que estiveram em Boston no dia do atentado.
Esperávamos que os dois grupos (pessoas que tiveram exposição direta e indireta) acusassem sintomas graves de estresse. Surpreendentemente, as pessoas que consumiam informações da mídia relacionadas ao atentado (seis ou mais horas por dia), na semana após o evento, estavam seis vezes mais propensas a relatarem índices elevados de sintomas graves de estresse do que aquelas que compareceram à Maratona de Boston naquele dia. Ou seja, elas relataram uma variedade muito maior de sintomas relacionados a índices graves de estresse – flashbacks, ansiedade, tentativa de evitar lembranças do atentado, ou pensar que aquilo não tinha acontecido ou que tinha sido um pesadelo – do que as pessoas que estavam onde as bombas explodiram. Mesmo que considerássemos essas pessoas especialmente suscetíveis – por exemplo, pessoas com doenças mentais pré-existentes ou aquelas que já passavam muitas horas na frente da televisão (e poderiam se tornar mais estressadas pela cobertura midiática) –, não houve alteração em nossas conclusões.

Bombeiros trabalham no atendimento às vítimas das explosões durante a maratona de Boston, em 15 de abril de 2013.
Como explicar isso? Acredito que a cobertura repetitiva de eventos traumáticos pela mídia pode manter o evento (e os sentimentos causados por ele) vívidos em algumas pessoas. Por outro lado, quando uma pessoa é exposta de modo direto a um evento, há uma sensação de alívio e de término do evento, pois uma vez que as bombas param de explodir a ameaça chega ao fim. Ver as mesmas imagens perturbadoras repetidas na televisão (ou em mídias sociais) pode acionar medos e causar preocupação de modo contínuo em algumas pessoas, dificultando que elas processem mentalmente o evento.
É importante notar que as pessoas não respondem da mesma maneira à cobertura da mídia. Há muita variação nas reações aos traumas. Somente algumas das pessoas excessivamente expostas à cobertura midiática da Maratona de Boston desenvolveram sintomas graves de estresse. Então no momento estou estudando quem é mais vulnerável à exposição direta e indireta dos eventos traumáticos. Se conseguirmos identificar quem é mais afetado, podemos alcançá-los logo após o evento e tentar prevenir o desenvolvimento dos problemas.
Logo após o atentado, a Cruz Vermelha colocou sinalização em Boston alertando as pessoas a limitarem a exposição à cobertura midiática. Penso que é um ótimo conselho para todos nós – deveríamos nos sentir seguros enquanto acompanhamos o que acontece no mundo. Estamos só começando a entender as consequências do papel da mídia quanto aos traumas coletivos e à propagação de níveis graves de estresse além das áreas afetadas. São necessárias mais pesquisas para se descobrir qual a melhor maneira de proteger pessoas vulneráveis ao impacto negativo da exposição da mídia após os desastres.
Tradução: Isis Shinagawa

Matéria original publicada no site Zócalo Public Square, publicação com sede em Los Angeles que busca conectar pessoas e ideias que estimulem o sentimento de cidadania e comunidade.

post: Marcelo Ferla
fonte: Opera Mundi

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