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segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Traumas da guerra na Colômbia, um desafio do pós-conflito.


Traumas da guerra na Colômbia, um desafio do pós-conflito.

Combatente da guerrilha das Farc em Vegaez, no departamento de Antioquia, no dia 1º de janeiro de 2017 - STR/AFP,
Vítimas ou atores do conflito armado, milhões de colombianos viveram os horrores da guerra e sofrem os estigmas de décadas de violência, cuja cicatrização é um dos desafios a superar no caminho para a paz.
“Mantenho sempre meio que uma certa aflição”, confessa Maria, a voz quase inaudível.
Quando criança, ela viveu os combates entre militares e guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc, marxistas), que recentemente assinaram um acordo histórico de paz para encerrar 52 anos de guerra.
“Eu tinha seis aninhos (…) Sempre tive medo. 
Todas as tardes, tínhamos que ficar na cidade, porque a guerrilha chegava ao sítio para matar as pessoas”, conta à AFP essa mulher de 49 anos.
Seu pai, que se negou a trabalhar para eles, sobreviveu por pouco a um ataque da guerrilha.

Membro da guerrilha das Farc segura arma em Vegaez, no departamento de Antioquia, no dia 30 de dezembro de 2016 - STR/AFP.
Ratificado no fim de novembro, o acordo de paz é a luz no fim do túnel de uma guerra da qual também participaram outras guerrilhas, grupos paramilitares e agentes do Estado, deixando pelo menos 260 mil mortos, 60 mil desaparecidos e quase sete milhões de deslocados.
Algumas linhas do acordo, de mais de 300 páginas, são dedicadas a “medidas de recuperação emocional”. 
Para “contribuir para aliviar o sofrimento das vítimas”, o governo se compromete a “melhorar a qualidade da atenção psicossocial” e reforçar os serviços de saúde mental, aponta o documento, sem detalhes.
Preocupa o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) que esses traumas possam gerar violência em tempos de paz. 
Em outubro, o organismo pediu que não se esqueça que a saúde mental é “o eterno trauma do conflito que a Colômbia não pode ignorar”, destacando que as vítimas “também trazem as cicatrizes da violência na cabeça”.

Vítimas e/ou agressores?
Após uma infância marcada pelo medo, Maria, cujo nome foi alterado por segurança, teve um marido violento, o qual abandonou. 
Sem dinheiro e endividada para cuidar do filho doente, trabalhou para os paramilitares das Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), criadas para combater as guerrilhas.
“Eu trabalhava na parte logística, preparando as refeições deles, ou lavando sua roupa”, conta.
“Nunca lhes perguntava de ondem vinham, ou o que faziam”, afirmou, enquanto arranha, nervosa, a mesa de sua casa simples, localizada no quintal de um edifício em um subúrbio da capital, Bogotá.
Maria garante que nunca manipulou uma arma, mas contou ter participado do processo de desmobilização dos paramilitares de extrema direita, completado em 2006. 
Dez anos depois – e embora tenha se mudado para um local mais de quatro horas afastado de sua região de origem -, vive com medo de que alguém a reconheça.
“Ouviram-se muitos rumores, que iam matar as pessoas que trabalhavam com eles. 
Aí, sim, a gente sente medo”, confessa a mulher de cabelos castanhos e constituição física robusta, que diz nunca se sentir como ela mesma, mas como se tivesse “um dublê”.
“Definir uma linha entre quem é vítima e quem é o carrasco é muito complexo”, explicou à AFP Joshua Mitrotti, diretor da Agência Colombiana para a Reintegração (ACR), que acompanha os ex-combatentes em seu retorno à vida civil, inclusive uma breve terapia que, se necessário, é ampliada no serviço de Saúde pública.
“Das 49.000 pessoas que atendemos, 90% chegam afetadas: temos estresse pós-traumático em mais ou menos 30%”, indicou.
Os outros problemas combinam dependência ao álcool e/ou drogas (34%), dificuldade de controlar os impulsos (26,2%) e ansiedade (27,3%).
Os mesmos sintomas podem ser encontrados em vítimas civis, ou em testemunhas de massacres, estupros, sequestros, recrutamento de crianças, deslocamento forçado e outras crueldades dessa guerra.

Viver com o sofrimento

Ivonne Zabala, da organização Médicos Sem Fronteiras, durante entrevista com a AFP em 10 de outubro de 2016 - AFP.
Ivonne Zabala, da ONG Médicos sem Fronteiras (MSF), assegura que muitos “viveram mais de um evento e têm mais de um fator de risco”: por exemplo, “uma pessoa que teve um familiar assassinado, mas que também teve de se deslocar e chegar a um local com situação de violência em seu entorno”, como certas comunidades de grandes cidades.
“Isso leva a uma deterioração significativa da saúde mental”, declarou essa psicóloga colombiana, enumerando os problemas crônicos mais comuns: depressão, ansiedade, problemas de adaptação, estresse pós-traumático.
Segundo um estudo da Organização Internacional para as Migrações (OIM) de 2014, citado pelo CICV, 80% das vítimas do conflito “não esquecem, mas conseguem viver com seu sofrimento”. 
Além disso, “20% têm um trauma profundo em sua vida”.
“É uma população muito traumatizada ao longo de muito tempo. 
É multigeracional, e isso gerou disfunções e uma menor empatia e compaixão” entre os colombianos, disse à AFP Maarten de Vries, psiquiatra holandês, após uma palestra sobre “A saúde para uma paz duradoura”, na Universidade Javeriana de Bogotá.
Além das múltiplas causas de sofrimento, a duração do conflito, o mais antigo da América, faz que várias gerações de colombianos estejam afetadas direta, ou indiretamente. 
E essa violência endêmica, com esses traumas, repercute em casais e famílias.
Publicada em dezembro, a última Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde (ENDS) mostra que uma em cada três mulheres apanhou de seu companheiro (ou marido) atual, ou do anterior.
A especialista colombiana em Saúde Pública, Mary Luz Dussan, que trabalha na Nicarágua, considera que “falta à Colômbia pensar no bem-estar do povo” e rejeita a carência de “acompanhamento psicossocial efetivo”.
“Mas ainda pode ser feito! É preciso pensar na reconstrução da pessoa destruída nesta guerra”, ressalta Mary Dussan.

post: Marcelo Ferla

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