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domingo, 2 de novembro de 2014

Cinema.


Woody Allen: “Se não fosse tímido, teria tido uma vida melhor”.
Claustrofóbico, alarmista, tímido, pessimista... Adjetivos para um cineasta genial que, com quase 80 anos, volta ao seu encontro anual com um novo filme: ‘Magia ao luar’.


As piadas, a angústia existencial, a autoanálise, a lucidez. 

Os pensamentos sombrios, os galanteios, a falta de esperança, o bom humor. 

O cinema de Woody Allen contém todos esses elementos, Woody Allen se compõe de todos eles, e todos eles aparecem ao longo dessa entrevista realizada em um luxuoso hotel de Paris. 

Perto de completar 80 anos, o velho Allan Stewart Königsberg, mago da palavra cinematográfica, reverenciado diretor e agudo comediante, autor de filmes deslumbrantes como Manhattan; Noivo Neurótico, Noiva Nervosa; Zelig ou Crimes e pecados, entre muitos outros, aparece fiel a seu encontro anual com a tela grande, um compromisso do qual só se furtou duas vezes desde 1996. 

Um filme por ano. 

Sua compulsão para a produção de longas-metragens não tem igual. E assim já se vão 46 filmes atrás da câmera.
Magia ao luar, seu filme mais recente, é a história de um mágico interpretado por Colin Firth que tenta desmascarar uma médium (Emma Stone) na França dos anos vinte, e chega depois de um dos mais aclamados filmes de sua filmografia, Blue Jasmine. Allen se mostra em boa forma durante a entrevista. Ninguém diria que vai fazer 80 anos. 

Só se incomoda quando é perguntado sobre a acusação de sua filha adotiva Dylan Farrow, que afirma ter sido vítima de abuso sexual quando tinha sete anos. 

Apesar de o caso ter sido rejeitado em 1993 por falta de provas, Dylan Farrow escreveu em fevereiro passado uma carta ao The New York Times na qual voltava a acusá-lo. 

Só no que tange essa questão é que Allen se mexe na poltrona, sobrepõe sua argumentação ao enunciado da pergunta e faz todo o possível para evitar a questão.

"Você está condenado à morte desde o nascimento. E tudo para que?".

O homem que sonha com aranhas, segundo confessa, e cujo filme favorito é Ladrão de bicicleta, do mestre De Sica, responde ligeiramente acomodado em uma poltrona do quarto 205 do hotel Le Bristol, no qual mensageiros de quepe recolhem pacotes na recepção como se continuássemos nessa Paris dos anos vinte que tanto fascina Allen. Fala com certa lentidão, lúcido e pessimista. 

De vez em quando, por trás de suas palavras, emerge seu sorriso de menino travesso.
Por meio do mágico Stanley Crawford, protagonista de seu novo filme, o sr. descreve um homem que quer fugir da realidade para abraçar a magia. O sr. faz isso também? 
Sim, mas não conseguimos. Nós dois gostaríamos que houvesse algo mágico no universo, na vida, mas, infelizmente, parece que o que se vê é o que existe.
Ou seja, o sr. é tão racional quanto o personagem. 

Totalmente.
E o que isso representa em sua vida? 
Significa que na maior parte do tempo você está deprimido, em vez de estar feliz. É triste a condição de ser humano, de ter de passar por isso...
A que o sr. se refere? 
Vivemos em um mundo que não tem sentido nem propósito. Somos mortais e todas as perguntas importantes... Para mim o importante nunca foi quem é o presidente dos Estados Unidos, essas questões vão e vêm. 

As perguntas importantes ficam conosco e não têm resposta. Por que estamos aqui? O que estamos fazendo aqui? Onde isso vai dar? Por que é importante envelhecermos, por que morremos? O que significa a vida?

E se não significa nada, de que serve? Essas são as grandes questões que nos deixam loucos, não têm resposta, e é preciso seguir adiante e esquecer-se delas.
Woddy Allen durante a filmagem do novo filme, junto a Colin Firth
O sr. abordou todas essas questões ao longo de sua filmografia. À medida que o tempo passa, as pessoas as enfrentam de uma forma diferente? 
Algumas pessoas sim, elas mudam. Eu não mudei o suficiente; quem dera tivesse mudado mais. Há pessoas cujos pontos de vista se modificam conforme as décadas passam. Começam acreditando em Deus e quando são mais velhas param de acreditar, porque a vida as desiludiu. Com outros acontece o contrário, se tornam mais velhos e começam a acreditar em Deus porque sua experiência os leva à conclusão de que há um poder superior, que há algo mais...
Não é o seu caso. Não, eu não acredito. Tenho uma visão pessimista e realista das coisas. Como Colin Firth no filme, acredito que o que se vê é o que existe.
Em determinado momento do filme, o personagem interpretado por Emma Stone diz algo como: “Todos precisamos de mentiras para viver”. Precisamos de mentiras para viver? 
Sim; Nietzsche disse isso; Freud disse isso; Eugene O’Neill disse isso em uma de suas obras. Precisamos de ilusões, a vida é terrível demais para enfrentar e não podemos enfrentar a verdade do que é a vida porque é horrível demais. Cada ser humano possui um mecanismo de negação para sobreviver. A única maneira de sobreviver é negar. Negar o quê? Negar a realidade. A vida é uma situação tão trágica que só se sobrevive negando a realidade.
A vida sempre lhe pareceu tão trágica? 
Sim, desde que fui capaz de pensar, desde que tinha cinco anos, sempre me pareceu tremendamente trágica.

Quatro estatuetas
Woody Allen. Nascido no Brooklyn (Nova York) em 1º de dezembro de 1935, deu seus primeiros passos como comediante stand-up nos anos sessenta. Seu primeiro filme como roteirista e ator foi O que há, tigresa? Seu primeiro longa-metragem, Um assaltante bem trapalhão, em 1969. Nunca vai à festa do Oscar, não acredita nesses prêmios, mas Hollywood acredita nele: recebeu um total de 24 indicações ao longo de sua carreira, 16 como roteirista. E ganhou quatro estatuetas.
No filme atual, volta a transitar pelo terreno da comédia leve. Magia ao luar, ambientada na Costa Azul dos anos vinte, conta com a magnética atriz Emma Stone.

A máquina de fazer filmes não para.
Por quê? 
Porque consegui ver o que era desde muito cedo.

Consegui ver que você nasce, que não sabe por que nasce, que vive um certo número de anos, imprevisivelmente, pode morrer a qualquer momento, pode morrer aos 5 anos ou aos 15 ou aos 50, você nunca vai se sentir seguro e relaxado, sempre têm de estar alerta; e até com isso, finalmente, você vai morrer; você está condenado à morte desde o nascimento; ganha uma pena de morte no instante em que nasce, então “muito obrigado!” E tudo isso para quê?
O sr. faz um filme por ano desde 1966, com duas exceções. Como faz isso? 
Não se deve confundir a quantidade com a qualidade. 

Tenho saúde, graças a Deus, e continuo trabalhando, é agradável. Mas isso não diz nada sobre a qualidade dos filmes. Se me dissesse que fiz grandes filmes, um atrás do outro, desde 1966, isso seria um engano.
Bem, realmente é algo sobre o que alguns o criticam: por fazer muitos filmes e talvez não tão bons quanto os rodados nos anos setenta. O que o sr. acha disso?
Não acho nada, não significa nada para mim. Há pessoas que me dizem que Match Point, Meia-noite em Paris, Vicky, Cristina, Barcelona e Blue Jasmine são os melhores filmes que fiz na vida. O que importa o que as pessoas pensam? Tanto faz.
E o sr., o que acha? Li que é tão perfeccionista que toda vez que vê um de seus filmes não gosta. Tem orgulho especialmente de algum deles? 

Ah, sim; acho que fiz alguns filmes bons; não grandes filmes, mas filmes bons.
Quais seriam eles para o sr.? 
A rosa púrpura do Cairo é um bom filme; Zelig também; Tiros na Broadway...
O que faz com que um filme seja bom? 
Para mim, um filme bom é quando estou em casa, tenho uma ideia, escrevo, filmo, monto, coloco a trilha e digo: 

“Saiu como eu queria, é exatamente o que eu queria!”.
Soube que quando o sr. rodou Manhattan, não gostou nem um pouco e até ofereceu à United Artists fazer gratuitamente se não o exibissem. 

Sim, não estava contente quando acabei Manhattan porque não consegui o que queria. As pessoas gostaram, ótimo, mas não é o que eu queria. A mesma coisa aconteceu em Hannah e suas irmãs, que foi um grande sucesso, mas não para mim.

O diretor junto a Colin Firth em outro momento da filmagem.
Mais de uma vez o sr. disse que filmar é uma forma de escapar de suas ansiedades. 

Sim, me permite não pensar em questões sombrias. Penso se poderei contratar Emma Stone para o filme, ou Colin Firth; se devo rodá-lo no sul da França ou em Boston. 

Esses problemas triviais podem ser solucionados e, se não se resolvem, ninguém me mata; se tudo sai mal, mal, mal, o resultado é, simplesmente, que tenho um filme ruim. Os outros problemas, os que não consigo resolver, é que me matam.
Entre esses problemas estaria, imagino, o que aconteceu este ano com sua filha adotiva, Dylan Farrow, que o teria afetado... 

Não, eu separo muito bem as coisas.
Isso não o afeta? 

Eu só trabalho, não leio o que dizem sobre mim na imprensa, nunca leio as críticas sobre meus filmes, nem vejo meus filmes. Nunca vi de novo Um assaltante bem trapalhão desde 1967, quando rodei... Eu só trabalho; é a única coisa importante para mim; nem os prêmios, nem as críticas, nem as questões financeiras... Não leio o que se publica de mim na imprensa; seja bom ou ruim, críticas...
Sim, mas desta vez teve a necessidade de escrever no The New York Times sua versão dos fatos... 

Sim, tive de corrigir alguma coisa.
Trata-se de uma acusação de abuso sexual... 

Tive de corrigir alguma coisa e fiz isso. Escrevi rapidamente, não levou mais de uma hora. E foi tudo.
Em Woody Allen: um documentário, realizado em 2011, pessoas que trabalharam com o sr. o descreviam como uma pessoa tímida, um pouco adolescente, hipocondríaco, cheio de fobias. É assim? 

Até certo ponto. Não sou cheio de fobias, tenho algumas. Não entro em túneis, sou claustrofóbico. Não sou hipocondríaco; sou mais um alarmista: não imagino que estou doente, mas se vejo uma coisinha pequena aqui, uma picada de mosquito, penso que é um tumor cerebral. Tenho peculiaridades, mas não são perigosas...
Tímido... 

Sim, sempre lutei contra isso. Quem dera não fosse tão tímido, teria tido uma vida melhor.
O sr. rodou a maior parte de seus últimos longas-metragens na Europa. Fez isso para manter sua independência? 

Não. Foi por questões de financiamento, no início. Sempre fui independente, sempre tive o corte final, nunca, nunca, nunca, tocaram em meus filmes, desde o primeiro que fiz.
Sempre foi livre?

Completamente, 100% livre.

"Para mim um bom filme é quando tenho uma ideia, a escrevo, a filmo, a monto e digo: 'Saiu exatamente como eu queria".
Isso teve algum custo para o sr.? 

Desde que meus filmes não sejam muito caros, o que eu faço dá no mesmo. Tive problemas para conseguir dinheiro e me propuseram que fizesse Match Point em Londres, e assim me financiariam, então fui e gostei. Depois me chamaram da Espanha para que fizesse um filme em Barcelona.
De que o sr. se lembra dos dias em Barcelona?

Adorei, tive uma ótima experiência. Gosto muito da Espanha em geral. Minha mulher e eu passamos muito bem. Moramos em Barcelona por uma temporada, toquei muito jazz. Gostei muito de Madri quando fui, San Sebastián... E Oviedo me deixou louco: se em algum momento tiver de me aposentar, Oviedo seria o lugar.
Não acredito! É lindo, adorei o clima, a comida, as pessoas... E em Barcelona passei vários meses; com Scarlett Johansson, com Javier Bardem, com Penélope Cruz, passei muito bem.
O sr. costuma dizer que na Europa o consideramos um intelectual porque usa óculos de aros pretos, mas que na realidade o sr. não é... Sim, é isso o que as pessoas pensam de mim.
Ou seja, o sr. não é um intelectual. 

Não sou um intelectual, mas as pessoas pensam que sou porque tenho a aparência que se atribui aos intelectuais. 

Mas eles não têm um aspecto especial; têm o mesmo dos levantadores de pesos ou dos jogadores de beisebol... Há anos, se você lesse muito, acabava com a vista, e se usasse óculos era porque lia muito, porque era uma pessoa de livros. Mas eu não sou um intelectual.
O sr. costuma contar que gosta mesmo é de tomar uma cerveja assistindo uma partida de beisebol... 

Sim, não sou um intelectual. Gosto de tocar jazz; gosto de assistir basquete, beisebol, futebol americano, tênis, gosto de esporte... Não são atividades de intelectual.
Woody Allen e Penélope Cruz, a quem dirigiu em 'Para Roma com amor'.
Depois de vir tanto para a Europa para seus filmes, não sente saudades de filmar em Nova York? 

Não, não muito. De vez em quando gostaria de fazer um filme em Nova York, porque sou louco pela cidade de Nova York, mas não é que eu vá ao Sudão ou à Líbia filmar; vou fazer filmes em Barcelona, Londres, Paris, Roma...
Sim, e dizem que seus filmes são muito turísticos...

Ah, sim, para mim as cidades são personagens vivos, como Nova York. O lugar em que estou é muito importante para mim, sou muito urbano e gosto que o público sinta a cidade como eu sinto. Com Nova York costumavam me dizer o mesmo, que não era exatamente como eu retratava.
Foi o que disseram quando fez Manhattan... Sim, e eu disse que para mim tanto fazia. Sou um artista, não sou jornalista; mostro a você como sinto Nova York, minhas impressões da cidade, o mesmo com Barcelona e com Roma... E vou a essas cidades como turista, sou um turista em Roma, sou um turista em Barcelona, e as vejo pelos olhos do turista que se apaixona por elas. 

Como turista, não me apaixono por todas as cidades que vou, viajei por toda a Europa. Mas tive um sentimento muito apaixonado pelas cidades em que filmei.
O sr. continua não indo à entrega do Oscar. Por quê? 

Não sou uma pessoa de prêmios. É possível dizer qual é o filme favorito de alguém, mas não qual é o melhor filme. 

Quem pode dizer isso? São avaliações pessoais, não significam nada. Para o Oscar, as pessoas fazem campanha e gastam milhões de dólares para comprar esses prêmios.

"Sou muito pessimista porque o problema do mundo é que depende da gente. Se olha a história, vê que não se fez um bom trabalho".

Mudando de assunto, o sr. se preocupa com o mundo em que vivemos, com o rumo que nossa civilização tomou? 

Sou muito pessimista porque o problema do mundo é que ele depende das pessoas. Se você olhar a história, vê que as pessoas não fizeram um bom trabalho administrando-o, cuidando dele, vivendo nele. Não tenho muito claro que o mundo vá sobreviver; não há muitas razões para o otimismo no momento, talvez em alguns anos haja melhores perspectivas.
O sr. não encontra nenhum motivo para a esperança? 

Bem, há uma porção de pessoas agradáveis. Mas ou não há suficiente, ou são passivas demais, ou a tarefa é opressiva; ou os maus têm mais ambição e energia. Mas é difícil encontrar um ponto luminoso na história da humanidade.
As pessoas, em geral, não são boas? 

As pessoas, em geral, estão assustadas. E quando estão assustadas, agem equivocadamente, se comportam mal. 

É a condição humana, a trágica condição da existência. 

As pessoas estão ansiosas e assustadas, não têm nada em que crer, nem têm esperança, e a vida é muito complicada, então se comportam mal. 

Se amanhã ficasse claro que a vida tem sentido, ou que há um deus no universo, sem dúvida as pessoas agiriam melhor e a situação mudaria radicalmente para melhor. Não é que as pessoas sejam inerentemente más, é que elas têm medo e por isso se comportam mal.
O sr. também tem? 

Eu estou tão assustado quanto todo mundo, mais do que a maioria; e sou uma das pessoas que se comporta decentemente apesar de tudo. Há pessoas assim, mas não muitas.
No ritmo que o sr. continua filmando, não parece que pense em se aposentar do cinema. 

Não tenho planos de me aposentar no momento. 

Mas posso voltar ao meu quarto e ter um infarto e ficar mal, então me aposentaria. Se a saúde aguentar, se eu estiver bem e as pessoas quiserem colocar dinheiro em meus filmes, não vou me aposentar. Se adoecer ou a idade me atrapalhar de uma forma que me envergonhe, ou não conseguir dinheiro para os meus filmes, então me aposento.
E a essa altura da vida, o que o sr. quer?

Não sei. Duas garçonetes de 20 anos servindo coquetéis.
Nada mais? 

Não preciso de mais nada!
Nada mais? 

Não, estou em forma!

post: Marcelo Ferla
fonte: El País

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