México: um país em choque
com massacre dos 43 estudantes.
Segundo
os organizadores, 120 mil pessoas participaram da marcha, no mais recente
protesto pelo desaparecimento dos jovens.
O México amanheceu, neste
sábado, horrorizado com o massacre dos 43 estudantes desaparecidos confessado
por traficantes de drogas detidos - revelação essa em que os pais das vítimas
se recusam a acreditar até que haja provas.
Depois de quase um mês e
meio sem notícias claras sobre os estudantes, a Procuradoria Geral mexicana
divulgou a chocante declaração de três membros do cartel de drogas Guerreros
Unidos. O trio confessou o assassinato dos jovens, relatando que os corpos
queimaram por 14 horas até serem jogados em um rio.
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Painel com fotos dos 43 estudantes desaparecidos no México.
Foto: Daniel Becerril / Reuters
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Até agora, a Procuradoria
havia conseguido reconstituir apenas parte do crime ocorrido na trágica noite
de 26 de setembro, em Iguala, no estado de Guerrero (sul). Policiais locais
atacaram alunos da combativa Escola de Magistério de Ayotzinapa, por ordem do
agora ex-prefeito detido. O objetivo era evitar protestos durante um comício
liderado pela primeira-dama da prefeitura.
Nesses ataques, seis
pessoas morreram, e 43 alunos foram dados como desaparecidos, a maioria entre
18 e 21 anos. Segundo confissões de outros envolvidos detidos, os jovens teriam
sido entregues por policiais a traficantes do Guerreros Unidos.
A organização Human Rights
Watch classificou o crime como "um dos mais graves registrados na história
contemporânea do México e da América Latina".
Para o historiador Lorenzo
Meyer, agora, "o importante é ver como a sociedade mexicana vai reagir.
Vai continuar tão apática como foi durante anos? Tão acostumada com as coisas
do jeito que são?".
"Espero que o estado
de choque não seja apenas meu, mas que seja compartilhado por meus concidadãos.
Se isso não causar um choque entre nós, nada poderá causar", disse Meyer à
AFP.
Mais de 80 mil pessoas
foram assassinadas no México, e outras 22 mil estão desaparecidas, desde que o
ex-presidente Felipe Calderón lançou o combate militar contra os cartéis, em
2006.
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Foto de arquivo do prefeito de Iguala, José Luis Abarca, preso pela polícia do México. 29/10/2013
Foto: Stringer / Reuters
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Até o momento, os pais são
os primeiros a garantir que não vão "baixar a guarda" diante da
reviravolta nas investigações.
"Parece que interessa
ao governo federal, com uma grande irresponsabilidade, que isso acabe logo,
porque tudo é na base de depoimentos, não há nada certo", declarou Meliton
Ortega, tio de um dos desaparecidos.
Com base nas confissões de
três pistoleiros, divulgadas parcialmente em vídeos na sexta-feira, o
procurador-geral do México, Jesús Murillo Karam, contou que os estudantes foram
levados para um lixão da localidade vizinha de Cocula, na noite de setembro.
Alguns já chegaram ao local mortos por asfixia, e os demais foram assassinados
lá mesmo.
Segundo os pistoleiros, os
corpos calcinados foram fraturados, colocados em sacos de lixo e jogados em um
rio próximo de Cocula. No lixão, peritos encontraram cinzas e alguns vestígios
de ossos humanos. Murillo Karam destacou que um dos sacos foi encontrado
fechado, com restos humanos que dificilmente serão identificados.
Os pais das vítimas afirmam
que acreditarão na versão atual apenas quando os restos mortais encontrados
forem verificados por uma perícia independente.
Na sexta-feira à noite,
cerca de 300 pessoas se concentraram, levando velas, na emblemática praça do
Ángel de la Independencia na capital e, depois, seguiram para a sede da
Procuradoria. Na fachada do prédio, pintaram "#YaMeCanséDelMiedo"
(#jamecanseidomedo).
"Sinto impotência,
coragem, incredulidade em relação ao que o governo diz que aconteceu",
disse à AFP Judit Ureña, mãe de uma menina de sete anos.
Também na sexta, os
aguerridos professores da Coordenadoria Estatal de Trabalhadores da Educação de
Guerrero (CETEG, na sigla em espanhol) ameaçaram radicalizar seus protestos,
que incluíram bloqueios de estrada, saques a lojas e até atear fogo ao Palácio
do Governo em Chilpancingo.
Este é o pior momento
político do governo Enrique Peña Nieto, desde que o presidente assumiu o cargo
em 2012.
Neste ano, quando o Partido Revolucionário Institucional (PRI)
recuperou a presidência, Peña Nieto foi aplaudido por chefes de Estado por suas
polêmicas medidas, como a abertura do nacionalizado setor petroleiro ao
investimento privado.
Protestos em massa varrem
o país, e a expectativa é que aumentem após as últimas notícias sobre os
estudantes.
Em meio ao estado de
comoção nacional, continua a causar polêmica a viagem do presidente Peña Nieto
à China e à Austrália, onde participará de cúpulas de economia, entre elas a do
G-20. Ele embarca neste domingo.
"Isso o afeta
negativamente, porque acho que o México, com as reformas, sobretudo, no tema
energético, havia-se tornado um cenário muito atraente para os capitais",
disse à AFP o especialista em Segurança Javier Oliva, da Universidade Nacional Autônoma
do México (Unam).
Peña Nieto encurtou a
viagem em quatro dias, mas continua recebendo críticas.
"É uma ideia ruim que
ele vá (...) Já imagino a primeira foto com Xi Jinping e com Peña Nieto com uma
taça de champanhe, enquanto os pais estão tentando enterrar seus filhos",
acrescenta Oliva.
Os pais dos estudantes
acusam o governo de falta de sensibilidade. Já analistas consultados pela AFP,
como o ex-oficial de Inteligência mexicano Alejandro Hope, suspeitam de que as
novas revelações tenham sido divulgadas propositadamente na sexta-feira e antes
da viagem do presidente.
"Para mim, parece que
há uma tentativa de 'administrar tempos'. Se guardaram a informação, imagino
que tenha sido por razões que tenham mais a ver com 'tempos políticos'",
comentou Hope.
post: Marcelo Ferla
fonte: Site terra.
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