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segunda-feira, 5 de maio de 2014

Inacreditável.


RETRATO ÍNTIMO (DE TODA MULHER).
por Ana Rossato
A dor de ser mulher nas fotos poéticas de Cris Bierrenbach
A liberação dos dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, que apontam o aumento de 18% nos casos de estupro registrados (registrados!) em 2012, ultrapassando até os "comuns” casos de homicídio.
Que as mulheres sofrem violência todos os dias, nós já sabemos. Apesar disso, ignoramos. Mas é impossível ignorar o trabalho questionador de Cris Bierrenbach.
A artista, que iniciou sua carreira como fotojornalista, dá um grande soco no estômago de todos nós com o seu Retrato Íntimo.

A princípio, as chapas de raio-x com sombras de objetos perfurantes parecem uma montagem despretensiosa.

Nosso olhar se transforma quando descobrimos que, na verdade, as chapas são do quadril da própria artista - e os instrumentos estavam realmente dentro dela.
Fotos de cincos chapas de raio-x, mostrando uma tesoura, uma faca, um garfo, uma seringa e um fórceps levam nosso raciocínio a outro patamar e uma sensação angustiante toma conta. A angústia vira nojo.

Como alguém pode fazer isso deliberadamente?


Mas não é isso que fazem contra nós todos os dias?

Claro, o trabalho de Cris choca pelo conteúdo obsceno, pela vagina penetrada pela ponta perfurante. Esse é um dos vários aspectos da violência: seja ela vinda do objeto externo, seja ela vinda da própria mão da vítima que o introduziu. A mão que introduz os objetos atua como elemento ativo da agressão, muito distante da característica passiva já naturalizada da mulher. 

A artista toma para si a tarefa da mutilação, como um grito de liberdade, mesmo que pelas vias mais difíceis.


O trabalho também inverte toda a aura voyer que essa imagem poderia evocar. Ao invés da imagem provocar a imaginação (e consequentemente o prazer) sobre como seria o corpo por cima daqueles ossos, ela afasta qualquer intenção de uso, mesmo que visual, desse corpo, exatamente pela utilização dos materiais.


Esses, por sua vez, despertam as mais variadas interpretações. A escolha do fórceps é bem interessante, já que o instrumento utilizado na obra é, na medicina, uma ferramenta para extração dentária (além do outro tipo de fórceps que auxilia a retirada de fetos em trabalhos de parto complicados). 

A mutilação da boca remete ao silêncio dos oprimidos. Silêncio obrigatório e não deliberado. Ao introduzir um fórceps em sua vagina, Cris grita contra o silêncio que somos obrigadas a sustentar. Em prol de...?


O trabalho sintetiza muitas dores de uma forma poética: a dor da mulher em um ambiente já violento, se violentando; a dor da inação de quem é golpeado pela imagem e a dor de se viver em uma sociedade tão cruel.
A sua arte, Cris, é a mais bela crueldade.
Marcelo Ferla
fonte: Obvius.

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