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sábado, 26 de abril de 2014

Falando nisso.


Trote universitário, ou: “A idiotice humana pra todo mundo ver.”


Victor Gomes

“Aqui a gente segue uma hierarquia e a gente apanhou há seis anos atrás. O povo do sexto ano da faculdade.Hoje é o dia de vocês apanharem, porque você são bichos da faculdade e vocês vão apanhar hoje para bater amanhã”.
Assim um veterano do estudante Luiz Fernando justificou o trote brutal pelo qual os calouros da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto foram coagidos a passar este ano. O trote se deu numa festa de três dias, onde as boas-vindas se deram com gestos como urinar em cima dos calouros, agredi-los fisicamente e obrigá-los a tirar a roupa em cima de um palco, na frente dos donos do pedaço.
O rapaz ficou traumatizado e desmaiou ao lado da piscina, seminu, coberto de vômito e urina. No dia seguinte, recusou-se a participar da festa novamente e declarou que denunciaria o evento. Foi ameaçado de morte e convocado a retornar. Assustado, Luiz Fernando fugiu de volta para a cidade natal, onde realiza tratamento psicológico e tenta se recuperar para ter condições de retornar à faculdade.
Meu foco aqui não é o caso específico deste aluno. O caso dele é revoltante, sem dúvida alguma. Mas não é esporádico; é comum. A notícia, que li neste feriado, me fez pensar na tradição de trotes ao redor do país. Em como isso tudo é doentio e idiota.
Já ouvi todo tipo de justificação. Desde a que se pretende como mais embasada (“é um ritual de iniciação”) até a mais comum e estúpida, beirando a imbecilidade patológica (“calouro burro, vamo mostrar quem é que manda aqui!”). Mostrar quem manda. É ridículo. A sensação de poder, de estar no topo da organização universitária. Eu sou veterano, me respeita!

Quanta estupidez. Eu espero sinceramente que essas pessoas se graduem e trabalhem para um chefe que curta aquele assédio moral básico. Diariamente, se possível . Um chefe que goste de afirmar a autoridade o tempo inteiro, e rebaixar os subalternos com mais frequência ainda. E não vale reclamar, hein? Questão de hierarquia.
E tem a desculpa do ritual de iniciação. Sério que esse é o melhor modo que se pode ter de iniciar alguém na vida universitária? Quando eu entrei na universidade, meus veteranos se ofereceram pra pagar a conta do bar. Sem brincadeira. Apertaram minha mão, me deram as boas-vindas e chamaram pro bar, no qual não paguei um centavo da conta, porque não deixaram.
Juro pra vocês que foi um modo interessante de me iniciar na universidade. Juro que não me deu vontade de fugir quando isso aconteceu. Mais importante de tudo, garanto que não dava pra denunciar os veteranos ao Ministério Público.
O trote que usei no começo da postagem é só um exemplo de barbárie. Conheço vários outros. Temos, por exemplo, as expressões repugnantes de machismo, exteriorizadas em um LEILÃO DE CALOURAS. Isso aí, um leilão. Os calouros davam lances nas calouras e, quem ganhasse, oferecia de presente pra um veterano, que tinha o direito de sair com a menina pelo resto do dia. 

Não, não é brincadeira. Pois é, século XXI.
Os exemplos não param. Volta e meia, relembram que já houve coma alcoolico, humilhação pública e até morte.

Mas, poxa, só estamos nos divertindo, né? Dando as boas-vindas. É uma tradição da universidade, eu passei por isso quando entrei, então todo mundo tem que passar. Né não, brother?
Sério, isso é doentio.
A universidade não exige trote. É completamente desnecessário organizar um evento para denigrir e humilhar os recém-chegados, forçando-os a entoar musiquinhas enquanto se anda de cócoras ou engolir um litro de cachaça, para passar mal logo em seguida. Não só desnecessário, é errado. Por qualquer ângulo que se olhe, não é legal.
De onde tiraram que os trotes violentos praticados por aí são “maneiros”? Qual é a lógica? Pelo amor de qualquer coisa em que vocês acreditem, dá pra explicar?
Porque tudo o que vejo é um bando de idiotas que se aproveita da vontade de inserção dos calouros para humilhá-los e afirmar a própria autoridade. Que se aproveitam do ambiente a seu favor para oprimir as calouras.
(Gatinha, tem que dar pra mim porque sou veterano, né?)
Quem nunca viu acontecer? É desprezível.
O caso do Luiz Fernando só ganhou repercussão. Tem vários outros acontecendo por aí a cada semestre, que ninguém comenta. Porque uma porrada de gente acha normal.
Isso não simboliza a universidade. Não deveria, pelo menos. Integração, formação de conhecimento, pesquisa, ensino e extensão. Um ambiente onde se produz intelectualmente o que nos ajuda a crescer como seres humanos. Isso a universidade deveria simbolizar.
Não o local onde um grupo de animais marca território e reafirma aos gritos ébrios a própria imbecilidade.
Universidade. Dizem que de lá sairão as grandes mentes do futuro brasileiro. Pois é. Concordo. Nós estamos fodidos.


VICTOR GOMES
Victor Gomes está no último ano de Filosofia pela Universidade de Brasília e tem a esperança de que seja também a reta final da revisão do seu primeiro romance. Sua coluna no Literatortura vai ao ar nas terças-feiras e ele dá seus pitacos sobre o que acontece nos sábados ao redor do mundo através do Crônicas de um ano inteiro.

post: Marcelo Ferla

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