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domingo, 23 de fevereiro de 2014

Admirável mundo torto.

MERCADORIA HUMANA
por João Lobato
Cerca de 2,4 milhões de pessoas, em todo o mundo, sabem o que é ser vítima de tráfico sexual ou laboral, num negócio humilhante que rende milhões a quem o pratica. Para denunciar esta realidade, o fotógrafo Pedro Medeiros criou oito fotografias que nos acordam para uma verdade inconveniente: actualmente, há pessoas que são tratadas como se fossem objectos descartáveis.


Estirada numa prateleira de um armazém, uma mulher seminua, com pele cor de amêndoa e olhos de ébano brilhante, luta por se destacar entre os restantes bens consumíveis que aí se amontoam. Mas, tal como a natureza morta que a rodeia, o seu corpo (que nos parece querer seduzir para a luxúria) também está sem o fôlego da vida, igual a todos os outros produtos transaccionáveis que todos os dias compramos a troco de um punhado de notas ou moedas. Apesar de estarmos perante um ser humano, o seu olhar vazio dá conta da sua existência descartável, bem ao jeito de quem está habituado a ser vítima do compra, usa e deita fora que fazemos rotineiramente a qualquer outro objecto.
Na imagem ao lado, num cenário estéril e frio, um homem aconchega-se em cima do prato de uma balança, como se fosse uma criança frágil procurando proteger-se do exterior que o ameaça. O seu peso é escrutinado, tal como antigamente se faziam aos escravos, para avaliar o quanto se pagará pelo produto, pela força de trabalho que ele contém. No entanto, e mais do que isso, parece que nos estão a chamar a atenção para a “nova escravatura” dos tempos modernos, em que se traficam pessoas para fins laborais, para uma vida de semi-escravatura num qualquer campo agrícola, fábrica ou estaleiro de construção.


Eis duas fotografias incómodas, que nos convidam a reflectir sobre o verdadeiro valor da vida humana nos dias de hoje, sobre o papel que a ética e a moralidade devem assumir.
Anualmente, o tráfico de pessoas gera cerca de 32 mil milhões de dólares, isto a nível mundial. E no preciso momento em que o leitor lê estas palavras, estima-se que existam 2,4 milhões de pessoas que já foram vítimas de tráfico sexual ou laboral, sendo que 80 por cento delas destinaram-se a alimentar as redes internacionais de prostituição. Os trabalhos forçados e a semi-escravatura, em sectores como os serviços domésticos, a construção civil, as indústrias têxtil e alimentar, a agricultura ou a pesca, preenchem 17 por cento do total.


 Os dados são da UNODC, a agência da ONU para as Drogas e Crimes, a qual admite que estamos perante um cenário “degradante e humilhante” que assola quase todos os países do globo – seja como ponto de origem, trânsito ou destino. As mulheres acabam por ser as mais afectadas, perfazendo dois terços das pessoas traficadas.
Pior. Apesar de todos os números, é impossível quantificar o sofrimento que este negócio ilícito já produziu nas vítimas, grande parte delas submetidas a violência, maus tratos e à servidão. O facto de a quantidade de casos investigados pelas polícias nacionais ficar aquém do que é a realidade não ajuda, pois em grande parte os processos de averiguação só se iniciam após uma denúncia.


Fechar os olhos não é solução
Em diversos relatórios internacionais, Portugal surge como um país de destino para o tráfico sexual, sendo que grande parte dele provém do Brasil. Mas no que se refere ao tráfico laboral, já surge como país de destino e origem. Com o agravar da crise económica e financeira estes fenómenos tendem a agravar-se.
Para combater este flagelo, os projectos de sensibilização assumem-se como ferramentas imprescindíveis, como o que foi desenvolvido pelo fotógrafo Pedro Medeiros, a convite da associação Saúde em Português. Assim surgiu a instalação fotográfica “Mercadoria Humana”, composta por oito imagens que colocam o dedo na ferida e que pretendem “contribuir para o apoio às vítimas, a detecção de casos de tráfico humano, a denúncia de opressores e para uma maior informação e consciencialização sobre o tráfico de seres humanos”, sintetiza o fotógrafo português.

Essencialmente, a ideia passa por gerar “um processo de responsabilização pública junto do maior número possível de cidadãos”, pois estamos perante um problema que não pode continuar a ser ignorado porque quem sabe que ele existe.


Perante a enorme “responsabilidade” de representar fotograficamente um “flagelo humano universal”, a tarefa que Pedro Medeiros tomou em mãos não pôde ser abordada de forma leviana. Para começar, teve que recorrer a actores para produzir as imagens. ”Tive, desde início, a absoluta consciência de que não queria fotografar as vítimas, pois trata-se de uma questão ética de protecção da sua identidade, de defesa da perseguição e tortura a que são sujeitas”. O passo seguinte consistiu na “construção de um imaginário fotográfico, de carácter performativo, que pudesse traduzir o esmagamento psicológico, a privação de identidade, a violência e opressão exercida sobre as vítimas de tráfico humano".
O resultado foi uma série de imagens que vão ao cerne da questão: essencialmente, todos os que são submetidos ao tráfico laboral e sexual são objectificados, rebaixados a meras peças de mercadoria e despidos de toda e qualquer condição humana. E tudo acontece debaixo da complacência dos cidadãos.


A instalação esteve presente, ao longo de 2011, nas ruas e locais públicos da cidade de Coimbra, nomeadamente em formato mupi, cartaz ou flyer, numa “apropriação da linguagem utilizada nos meios publicitários da sociedade de consumo”. O objectivo passou por chegar ao maior número de pessoas e fazê-las interrogar-se e pensar, ao mesmo tempo que procurou incentivar a denúncia de casos – daí que não tenha sido inocente a inclusão, nas imagens que estavam espalhadas pela cidade, do número de telefone das entidades que dão apoio às vítimas.
“Existe um vazio, nas imagens do projecto Mercadoria Humana, que reproduz a frieza da nossa impotência”, salienta o antropólogo Ricardo Salgado, num texto de apresentação que escreveu para a obra. “Esta impotência multiplica-se facilmente através do descartar de responsabilidades, apesar de ser natural que nos consideremos como inconscientes de algo visto como ausente, por outras palavras, visto como um tabu supremo”. Todavia, esta série de fotografias, que esteve à vista de qualquer cidadão e que está agora acessível no website da Comissão Europeia, tem precisamente o condão de providenciar o contrário, de levar cada pessoa a reflectir na realidade que é retratada, instigando-a a criticar e denunciar, colocando assim o germe para que se tomem acções futuras contra essa mesma realidade.


Apesar de também desenvolver trabalhos noutros âmbitos, Pedro Medeiros não nega que os seus projectos seguem um fio condutor, o de “instrumento de intervenção humana e social”. Todavia, considera importante que se interligue o trabalho que se faz com o contexto em que se está imiscuído, ou não fossemos nós criaturas do tempo, do espaço e das circunstâncias em que vivemos.
Tal como explica, “a procura de uma linguagem fotográfica, ou a criação de um discurso, sendo uma viagem solitária, constrói-se em permanente experimentação, partilha e comunicação com outras áreas, no tempo e na sociedade da qual fazemos parte”. 

Uma visão mais abrangente, portanto, capaz de captar e denunciar os problemas de um mundo cada vez mais interconectado, interdependente e globalizado, mas em que os seres humanos ainda são tratados como simples mercadoria.



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