Nestes tempos difíceis, as coisas que acontecem todos os dias conosco ou com pessoas que em nada são diferentes de nós cada vez mais me surpreendem. Na verdade nunca gostei muito de escrever sobre tragédias próximas de mim, sempre tive o hábito de escrever textos a cerca de assuntos que não estão tão próximos de mim. Isso pode ser uma fraqueza ou uma fragilidade ou até egoísmo.
Só sinto que não se trata de nada disso quando me deparo com cenas como a que presenciei hoje em um programa da Rede Record, intitulado “Hoje em Dia”, sobre a catástrofe ocorrida no estado de Santa Catarina e que atingiu direta ou indiretamente mais de 1,5 milhões de pessoas, algo sem precedentes, definitivamente.
A cena a qual me refiro foi feita pelo ator e apresentador Alexandre Frota para este programa. Ele se encontrava dentro de um dos helicópteros de resgate das Forças Armadas em plena atividade de resgate de pessoas até então isoladas em decorrência da enchente.
Logo após o pouso da aeronave em um campo desmatado, o militar que auxiliaria na aproximação das vítimas a serem resgatadas desceu da aeronave e se encaminhou até as proximidades de um aglomerado de árvores, onde debaixo dessas estavam as vítimas a serem resgatadas.
O militar se comunicou com os agentes da defesa civil que lá estavam agradando o resgate e logo em seguida as vítimas começaram a embarcar na aeronave, deixando todo o terror, quase surreal para trás.
Eis que no momento em que as vítimas estavam adentrando o helicóptero vi uma senhora, com aproximadamente 40 anos de idade, mais não com um rosto menos velho do que a idade que deve possuir, marcado por sofrimento, medo, aflição, angústia, desespero, enfim, os sentimentos mais nefastos e tenebrosos que um ser humano que perdeu tudo e passou pelo que ela passou naquelas ultimas horas pode sentir.
Com certeza não sei dimensionar o que estas pessoas estão sentindo, nunca passei por nada igual em minha vida. Gostaria de saber, para poder compreender melhor o que se passa na cabeça de alguém assim além daquilo tudo que escrevi acima e imagino que aconteça, só imagino.
O rosto daquela senhora resumia tudo que já tinha visto até então, ela estava completamente ensopada, pingava, cabelos molhados, roupas molhadas, uma única sacola de supermercado carregando tudo que sobrou ou que ela pode pegar antes de ser engolida pela lama e pela água. Ela chorava, com certeza não acreditava, até aquele momento, o que realmente estava acontecendo, não conseguia assimilar a situação, estava em choque. Sequer teve coragem de olhar para trás ou através da janela do helicóptero.
Isso não é coisa do Brasil, um país quente, hospitaleiro, amigo, devem estar pensado todos aqueles que estão passando por isso. Pois aconteceu.
São 78.656 pessoas que tiveram que sair de suas casas no Estado, sendo 27.404 desabrigados e 51.252 desalojados, 97 mortos até o momento, 19 desaparecidos, 47 municípios atingidos pelos estragos causados pela chuva, 95% do Município de Blumenau está sem água, dez municípios em estado de calamidade, onze rodovias interditadas, o caos é geral.
Por um bom tempo não vou me esquecer do rosto daquela senhora, ela me resumiu em um único olhar, focado pela câmera, tudo que tinha acompanhado pelo jornal e pela televisão, um único olhar, uma única expressão.
Tentei por muitas vezes, em muitos momentos, me perguntar como deve se sentir uma pessoa que simplesmente tem tudo, coisas conquistadas durante uma vida toda de esforços, e que, de repente, vê todos os sonhos e desejos serem destruídos em segundos, minutos?
Já me conformei, acho que jamais conseguirei sequer me aproximar do que estas pessoas estão passando, A mim, a todos, basta ajudar como posso e rezar pelas almas daqueles que se foram e por aqueles que conseguiram sobreviver.
São milhares de bombeiros, militares das três Forças Armadas, agentes da defesa civil, voluntários, sobreviventes, ajudando e se mobilizando, de forma intermitente, alguns a mais de 40 horas sem dormir, todos em torno das únicas coisas que podem e devem ser feitas, auxiliar e recomeçar.
Façamos o mesmo, todos nós, vamos ajudar nossos irmãos e irmãs catarinenses de qualquer forma, levando roupas, alimentos, remédios, fazendo doações em dinheiro nas agências bancarias autorizadas, indo a eventos que estão fazendo campanhas juntando estes mantimentos, qualquer coisa.
Ajude, ajude estas pessoas que tanto sofrem e que não tem mais nada. Faça a pergunta de como elas se sentem, imagine como eu fiz e com certeza todos que fizerem isso se disporão a ajudar da melhor forma possível. É preciso.
Marcelo Ferla

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