Sempre gosto de lembrar aos leitores que este blog tem como intenção trazer à tona a informação, o conhecimento e o debate democrático sobre os assuntos mais variados do nosso cotidiano, fazendo com que todos se sintam atualizados.
Na medida em que você vai se identificando com os assuntos, opine a respeito, se manifeste, não tenha medo de errar, pois a sua opinião é de suma importância para o funcionamento e a real função deste espaço, qual seja, a de levar a todos o pensamento e a reflexão.
O diálogo sobre o que é escrito aqui e sobre o que vem acontecendo ao nosso redor é muito mais valioso e poderoso do que podemos imaginar.
Portanto, sinta-se em casa, leia, informe-se e opine. Estou aqui para opinar, dialogar, debater, pensar, refletir e aprender. Faça o mesmo.
Pesquisa
Custom Search
segunda-feira, 14 de agosto de 2017
Um brasileiro em meio ao ódio.
Intolerância,
racismo às claras e fuzis à mostra: o que vi (e senti) no maior protesto movido
pelo ódio em décadas nos EUA.
Ricardo Senra
Enviado especial da
BBC Brasil a Charlottesville
No dia seguinte à
violência, moradores tentam retomar a vida.
Quando propus minha ida
neste fim de semana a Charlottesville, uma cidade universitária de 50 mil
habitantes ao sul de Washington, nos Estados Unidos, minha ideia era conhecer
os diferentes matizes da nova direita americana após a eleição de Donald Trump.
O protesto "Unite the
Right", ou "Unir a Direita", até então não tinha muito espaço na
imprensa.
Alguns blogs chamavam atenção para o ato, alguns com elogios à
celebração do orgulho e nacionalismo americano, outros com críticas à ideia de
segregação que estes valores podem carregar.
Meu vagão no trem era
heterogêneo.
Famílias voltavam para a cidade com bebês para o almoço de domingo
com os avós, estudantes vinham reencontrar pais e namorados, um ou outro
jornalista fingia que estava ali por coincidência e achava que estava sendo
discreto mexendo freneticamente em seu computador, tablet e celular (eu era um
deles).
Quatro homens chamavam
atenção na fileira ao lado.
Carecas, fortes, cheios de tatuagens, vestindo
calça bege e camisa branca, eles conversavam sobre algo sério - e me olhavam
muito feio quando eu tentava ler seus lábios, que sussurravam e me deixavam
pescar apenas palavras soltas.
Uma delas foi "hate" - ou ódio.
Pois foi exatamente ódio o
que eu encontrei nas horas seguintes.
Tom agressivo,
prelúdio para a confrontação que se seguiu.
Enquanto desfazia a mala,
li no Twitter boatos de uma possível demonstração-surpresa dos manifestantes,
que haviam feito um acordo com a prefeitura para desfilar pela cidade só no dia
seguinte.
Era sexta-feira à noite e
eu corri para a Universidade de Virginia, ao norte do centro da cidadezinha de
casarões preservados e praças com monumentos antigos.
O campus estava escuro,
vultos andavam de um lado para o outro em busca de algum sinal.
Um grupo de
aproximadamente 20 homens subiu em passo acelerado em direção ao jardim
interno.
A 50 metros de distância, um grupo menor os seguia.
Corri até eles
pela penumbra.
O segundo bloco era
formado por estudantes que escreviam para um site local.
Anne, uma jovem de 20
anos, no máximo, me explicou:
"São eles. Estão tentando nos despistar e
andando em círculos".
Em 15 minutos eu
entenderia o que ela quis dizer com "eles".
Depois de circular todos
os cantos do campus, um dos homens gritou:
"Vamos!"
Eles começaram a correr.
Sabiam que nós os seguíamos e não diziam nada.
Corremos por quase 10 minutos
até chegar ao alto de um vale.
Manifestação rodeia
grupo de anti-fascistas que tenta proteger a estátua do ex-presidente ameticano
Thomas Jefferson.
"Eles" estavam
lá embaixo.
Centenas de homens e mulheres, incluindo algumas crianças, se
organizavam em filas, rindo alto e brincando entre si enquanto acendiam tochas.
Estava muito escuro e a luz das tochas de madeira tingia de vermelho o gramado,
onde estudantes normalmente jogam beisebal e futebol americano.
Um homem com tom agressivo
começa a falar no megafone.
"Alinhem-se agora! Duas filas! Todos!
Agora!"
A linha iluminada pelas
tochas já alcançava o horizonte quando eles começaram a marchar.
"Vocês
não vão nos substituir!", "Judeus não vão nos substituir!",
"Vidas brancas importam!", gritavam, bradando também ofensas a gays e
estrangeiros.
"Sou nazista,
sim", "A negra está assustada", "Suma daqui,
viadinho", "Ele não é americano".
Os gritos raivosos, partindo
do meio das tochas que homenageavam a Ku Klux Klan (grupo racista que promoveu
linchamentos, enforcamentos e assassinatos de negros), bastões de baseball e
socos ingleses.
A caminhada terminou com
uma briga generalizada com estudantes que tentaram impedi-los de se aproximar
da estátua de Thomas Jefferson, terceiro presidente americano, em frente ao
prédio principal da universidade.
Mas tudo isso era só um
prenúncio do que aconteceria no dia seguinte, o sábado da marcha oficial.
Acordei com gritos na
praça ao lado do hotel: "Escória racista!"
Confronto entre
neonazistas de extrema direita e antifascistas em Charlottesville - EUA.
Ali, grupos antifascistas
- opositores aos supremacistas brancos, em muitos casos também agressivos e
radicais - se reuniam para contra-atacar.
Nascida e criada em Charlottesville,
a senhora que servia o café da manhã comentava com a gerente.
"Manny disse que está
assustado.
Acredita que mandaram ele vestir a farda e vir trabalhar?"
Depois descobri que Manny
é policial aposentado há quase dez anos.
Ele havia dito que os colegas temiam
pelo pior, porque a quantidade de homens se aglomerando nas praças da cidade só
crescia.
"Manny disse que só
uma tempestade seria capaz de controlar isso aqui", contou a cozinheira.
A
previsão do tempo de fato indicava chuvas durante todo o dia.
Mas não se confirmou.
Durante quatro horas,
homens com suásticas tatuadas no crânio e bandeiras confederadas (símbolo do
grupo que lutou na guerra civil americana por manter a escravidão) trocavam
socos, pauladas e cusparadas com jovens vestindo máscaras e carregando bastões
de madeira e sprays de pimenta.
Eles se batiam até
sangrar, e policiais como o velho Manny assistiam a tudo de longe, visivelmente
impotentes diante de grupos numerosos, estimados entre 2 e 6 mil pessoas,
segundo a mídia local.
Supremacistas
brancos foram vistos usando uniformes militares e carregando armas.
Os nacionalistas,
neonazistas, supremacistas brancos e simpatizantes se concentravam na praça, em
torno da estátua do general confederado Robert E. Lee, um dos principais
defensores da escravidão.
Antifascistas, punks,
anarquistas e simpatizantes (incluindo hippies de roupas coloridas e tranças
como os que vemos nos vídeos de Woodstock) ficavam do lado de fora.
Para entrar na praça, os
nacionalistas precisavam atravessar um paredão formado por antifascistas.
Durante o caminho saltavam ofensas pesadas de ambos os lados, e volta e meia os
ataques verbais se tornavam físicos.
Fui pego de surpresa em
uma dessas escaladas violentas.
Eu tentava filmar o encontro entre os grupos,
quando uma briga generalizada começou.
Nacionalistas fechavam os olhos e batiam
com bandeiras em tudo o que viam pela frente, e antifascistas faziam o mesmo com
sprays de pimenta.
O spray me atingiu pelo
corpo todo - e por uns três minutos eu não enxergava nada e corria, tentando
sair da pancadaria. Alguém me puxou com força e me carregou.
Eu não tinha ideia
de quem era e temia o que fariam comigo.
"Calma, calma, você vai ficar bem".
A jovem fazia parte de um
grupo de estudantes voluntários que levavam materiais de primeiros-socorros,
água e comida para atender a feridos.
Eles passaram vinagre no meu rosto e um
produto que até agora não entendi qual é - mas tirou o ardor dos meus olhos na
hora.
Eles me salvaram no meio da confusão.
Voltei à cobertura para a
BBC Brasil e o que mais impressionava a meu redor, mesmo a mim, brasileiro, era
a quantidade de armas.
Grupos uniformizados, representando os dois lados dos protestos,
carregavam pistolas e fuzis, com cintos repletos de munição.
Na Virgínia, quem tem
porte de armas e determinados tipos de licença pode circular pelas cidades
exibindo o armamento.
A combinação entre a primeira e a segunda emendas da
Constituição americana - liberdade de expressão e direito ao porte de armas,
respectivamente - faziam em Charlottesville uma combinação tensa.
O medo era que, a qualquer
momento, alguém disparasse e um tiroteio de proporções imensas deixasse uma
multidão de feridos.
Grupos exibiam
armas pesadas de assalto abertamente.
Felizmente, isso não
aconteceu.
O governador declarou estado de emergência, e em poucos minutos
helicópteros, tanques e centenas de policiais de diferentes grupos, incluindo a
Força Nacional, chegaram à cidade e ordenaram a saída dos grupos nacionalistas
da praça. Eles seguiram em fila para uma estrada que leva para o subúrbio
local.
Pelo megafone, a polícia
dizia:
"Evacuem a área. Evacuem a área. Quem continuar aqui será
preso".
A maior parte das ruas do
centro foi bloqueada e eu fiquei preso em um quarteirão, sem poder ir até o
hotel - único lugar onde eu poderia ligar meu computador numa tomada, já que
todo o comércio estava fechado.
Nesse momento, pela segunda
vez, encontrei uma onda inspiradora de solidariedade em meio ao ódio que
pontuou o fim de semana em Charlottesville.
Grupos de moradores, muitos deles
idosos, circulavam pelas poucas ruas liberadas, oferecendo garrafas de água
gelada e pacotinhos com batatas chips e amendoins.
"Se hidrate, se
alimente", diziam, sorrindo.
"Quanto custa?", perguntei
automaticamente, achando que eram vendedores ambulantes.
"Fazemos por
amor", respondeu a senhora de cabelos brancos e avental azul, dando um
tapinha em minhas costas.
Dois homens com tatuagens
de símbolos nacionalistas estavam sentados em um canto, mexendo no celular.
O
grupo foi até eles também:
"Beba água. Se hidrate. Se alimente".
Passaram-se duas horas até
que as ruas do centro fossem abertas novamente.
Não demorou até que os grupos
que tentavam circular voltassem a se reunir.
Quando tudo parecia mais
calmo, tentei seguir um pequeno grupo de nacionalistas que se dirigia até um
estacionamento para entrar na van que os trouxe a cidade.
Nesse momento, um
carro cinza, completamente destruído, passou em alta velocidade.
Alguns antifascistas
aplaudiram, achando que o carro do nacionalista havia sido depredado.
Estavam
errados.
A duas quadras de onde
estávamos, uma multidão gritava após o carro ter atropelado dezenas de pessoas
e fugido em marcha ré, para depois acelerar em fuga em frente ao estacionamento
onde eu estava.
Quatro ambulâncias
chegaram rápido - pessoas ensanguentadas eram carregadas, parentes e amigos
choravam em desespero e a polícia tentava, à força, isolar o local.
Mais tarde
soubemos: Heather Heyer, uma mulher de 32 anos, morreu atropelada, enquanto
outras 19 pessoas ficaram feridas.
Heather Heyer
morreu atropelada por um veículo enquanto protestava contra a marcha de
supremacistas brancos em Charlottesville, nos EUA.
A cidade foi novamente
evacuada por algumas horas.
Anoiteceu, e a rua de pedestres do centro
histórico, que na véspera estava lotada de estudantes comendo e bebendo
animados, antes de entrar nas boates locais, estava deserta.
Jornalistas e
policiais eram os únicos a ir e vir, sempre em busca de "algo novo".
No local do atropelamento,
um grupo de jovens acendia velas e trazia flores.
Eles se organizaram em roda e
começaram a rezar, abraçados.
A chuva prevista para a
manhã daquele sábado enfim começou a cair. Inicialmente leve, uma garoa, depois
mais pesada - o que lentamente esvaziou o centro por completo.
Charlottesville estava de
luto.
Na manhã deste domingo,
moradores varriam calçadas e tentavam recomeçar.
No café da manhã do hotel, a
cozinheira conversava com a gerente.
"Manny ainda não
acordou, coitado. Está em choque. Sue (sua esposa) disse que ele não dorme
tanto há 30 anos."
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Deixe sua opinião.