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segunda-feira, 29 de julho de 2013

Sabia dessa.

V de Vingança: uma bomba contra o sistema
Carloina Correia da Mota

Evey (Natalie Portman) e V (Hugo Weaving)

Divulgação
A revista norte-americana Time questiona: "É possível para um grande estúdio de Hollywood fazer um filme de U$ 50 milhões no qual o herói é um terrorista? Um terrorista que aparece usando um colete de dinamite de um homem-bomba, que adota como lema, debaixo de uma máscara de madeira que ele nunca tira, que explodir um prédio pode mudar o mundo´?". A resposta está nas telas e faz com que o filme V de Vingança, que estreou nos cinemas brasileiros em 7 de abril, seja uma agradável surpresa.
O filme se baseia nos quadrinhos de Alan Moore e David Lloyd publicados em 1988. Baseado em sua insatisfação diante das adaptações de seus outros trabalhos, como Constantine, Liga Extraordinária e Do inferno, Alan Moore reprovou a realização do filme antes mesmo das filmagens. David Lloyd, por sua vez, colaborou com a produção e deu declarações afirmando que o filme seria, obrigatoriamente, algo diferente da história em quadrinhos original. Mas, mesmo com a reprovação de Moore e com alterações na história que serão sentidas por alguns fãs, o filme mantém o que há de essencial e subversivo dos quadrinhos.
Roteirizado pelos irmãos Wachowski, da trilogia Matrix, e dirigido pelo iniciante James Mcteigue, que trabalhou com eles na mesma trilogia, V de Vingança é um blockbuster hollywoodiano que provavelmente terá grandes platéias. Quem interpreta V é Hugo Weaving, que atuou em Matrix, na pele do Agente Smith. O surpreendente é que a indústria do cinema não conseguiu impedir que o filme fosse uma ácida crítica a George Bush e Tony Blair, nem que tivesse como herói um mascarado explodindo prédios públicos.
O personagem principal, que quer ser chamado apenas pelo codinome V, não tira sua máscara nem para fritar um ovo. O filme se passa numa Inglaterra de 2020, que tem à frente um governo totalitário, eleito com o discurso de que a população deve abrir mão de seus direitos e liberdades para que o Estado a proteja da ameaça terrorista.
V planeja explodir o prédio do Parlamento no dia 5 de novembro. A data se refere à história de Guy Fawkes, um soldado inglês, católico, que, num ato contra o governo protestante da época, pretendia destruir o prédio do Parlamento britânico. Ele foi preso em 5 de novembro de 1605 e enforcado alguns meses depois. A noite de 5 de novembro é lembrada até hoje na Inglaterra com fogos, fogueiras e com a destruição de bonecos de Guy Fawkes, algo como a malhação de Judas.
Dos quadrinhos para as telas
Os fãs dos quadrinhos notarão muitas diferenças entre a graphic novel e o filme. Tais diferenças, entretanto, não devem desagradar a maioria deles, pois o resultado é um grande filme, que preserva o melhor da história e acrescenta aspectos importantes, inexistentes no papel. Além disso, a versão cinematográfica deve levar muitos às bancas e livrarias em busca dos quadrinhos, que foram relançados com a estréia.
A maioria das supressões são justificadas pelo tempo de duração da história. Nos quadrinhos, a história é bastante complexa e dura vários anos, algo complicado de se transpor para o cinema. Isso foi determinante para o filme não poder mostrar a lenta transformação da personagem Evey dos quadrinhos, que no início era uma garota assustada de 16 anos e depois se torna a corajosa parceira de V. Nas telas, Evey (Natalie Portman, de Free Zone e Closer) já surge como uma mulher decidida e questionadora.
O detetive Finch (Stephen Rea, de Entrevista com o Vampiro) dos quadrinhos é muito mais perturbado, menos decidido, que seu correspondente na adaptação. O filme também não mostra que sua compreensão sobre V aparece durante uma visão que teve, durante uma viagem de LSD. Outra diferença é que, nos quadrinhos, o personagem V faz discursos a favor da anarquia e da ausência de líderes, o que desaparece no filme.
Esteticamente o filme é grandioso. Aproveita o contraste de luz e sombra dos desenhos de Lloyd, que compunham um ambiente depressivo para a sociedade totalitária do futuro. O filme acrescenta a esse clima imagens mais impactantes, sem o espalhafato tecnólogico de Matrix. A escuridão é explorada em todo o seu mistério. E a máscara de V, diante das diferentes cenas e luminosidades, possui uma expressividade sem igual.
Indivíduo e coletivo
V é um personagem singular, cativante, expressivo, criativo e teatral. Tais características são tão suas quanto seus planos de transformação social e sua participação nesse processo.
Como os super-heróis da Marvel, ele usa máscaras e usa um codinome em sua missão de salvar o mundo. No entanto, há uma grande diferença entre V e Batman ou Super-homem, muito além do método de atentados.
Neste ponto o filme supera os quadrinhos. O V das grandes telas defende a necessidade (e não é somente um detalhe) da ação das massas nas transformações. V pretende explodir prédios, mas também incitar o povo a se rebelar contra o governo tirano. Segundo ele, explodir um prédio como o Parlamento é algo simbólico, mas um símbolo não vale nada se não tiver o povo na rua. Mesmo que sua principal tática seja essa, por diversas vezes V mostra que a ação isolada é insuficiente. Assim, o atentado proposto por V se diferencia, por exemplo, dos atentados do 11 de setembro de 2001. Mesmo acertando um importante símbolo do imperialismo, a morte de milhares de pessoas, entre elas muitos imigrantes, não levou a uma mobilização dos trabalhadores e deu mais fôlego a Bush e Blair.
E, apesar de todas as ações serem planejadas por V, não há um heroísmo messiânico. A princípio é uma luta individual, uma vingança com ações planejadas por ele, inclusive com um toque teatral. Entretanto, o individual se quebra, em primeiro lugar, pela máscara e pelo codinome, que escondem até o fim a identidade do personagem. Depois, essa individualidade se dissolve por completo na multiplicação das máscaras na multidão, expressa ainda melhor na fala de V, que, ao ser ameaçado com uma arma, afirma que "você pode matar um homem, mas não um ideal". E a batalha deixa de ser uma atitude isolada, fruto de uma vingança pessoal, que dá nome ao filme.
Além da liberdade
Há lacunas, frestas. Os fãs mais puristas poderão reclamar das diferenças entre o filme e os quadrinhos. Outros poderão argumentar que os discursos de V mais próximos ao anarquismo foram suprimidos na versão cinematográfica. Uma cena de luta muito ‘matrix´ também era dispensável.
Os problemas da sociedade que são destacados no filme e combatidos pelo personagem principal se resumem à falta de liberdade numa sociedade autoritária. Nem o filme nem os quadrinhos questionam a desigualdade social, se há miséria, desemprego ou fome naquela realidade.
Entretanto, por mais divergências que se possa ter com os métodos da luta isolada ou da guerrilha, com o anarquismo ou a ausência dele, ou com o tom liberal do discurso, V de Vingança faz sua revolução nas telas. Não se muda o mundo explodindo um prédio, mas nenhuma lacuna prejudica a importância de este personagem mascarado estar em cinemas de todo o planeta com falas como "ninguém devia temer seu governo. O governo é que deveria temer seu povo".

Marcelo Ferla

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