"(...) as mulheres
são as primeiras a falar sobre o tamanho enorme do seu desejo. 'Para o meu
desejo, o mar é gota' diz Adélia. (...)
Aí os homens começam a ter
medo do desejo da mulher.
'Melhor uma mulher sem desejo.
Pois se ela não tiver
desejo, não passarei pela humilhação de não satisfazê-lo'.
Por isso os homens
de gerações passadas queriam noivas virgens, não por razões religiosas de
pureza, mas para impedir a possibilidade da comparação.
O homem não suporta
imaginar que o desejo de sua amada, que ele não consegue satisfazer, possa ser
satisfeito por outro.
Daí o terror da infidelidade da mulher.
Não, não se
enganem.
A ferida não é ficar sem ela, a dor não é a perda dela.
A dor maior,
insuportável, é narcísica.
Pois 'ao me ser infiel e me abandonar ela está
proclamando aos quatro ventos a minha incapacidade de satisfazer o seu desejo:
ela revela o segredo da minha incompetência'.
O que vai ser insuportável
para o homem não é a ausência da mulher, mas os olhares dos seus pares, homens.
A identidade sexual também se define, 'homossexualmente', pela confirmação dos
outros do mesmo sexo.
'A minha masculinidade deve ser reconhecida não só pela
mulher como também pelos meus pares'.
Saunas não deixam de ser santuários de
reconhecimentos.
Mas se a mulher não tiver desejo, o homem estará protegido
deste horrível perigo metafísico.
A virgindade, a ablação do
clitóris praticada por certas tribos africanas, a indiferença sexual e, no seu
ponto extremo, o crime de amor são formas de possuir a mulher através da
destruição do seu desejo.
'Uma mulher sem desejo será sempre minha'.
(...)"
(Rubem Alves)
post: Marcelo Ferla
fonte: Nani Nascimento

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Deixe sua opinião.