Por Felipe Pena
Escritor e professor da Universidade Federal Fluminense. Doutor em Literatura pela PUC, pós-Doutor pela Sorbonne e ignorante por conta própria. Autor de 14 livros.
Quem é o menino na areia ?
O menino na areia não é
sírio.
O menino na areia não é
refugiado.
O menino na areia não
respira.
E não respiram todos que
viraram o rosto para o rosto virado na areia.
Ele, o menino na areia, é
o arame farpado na fronteira, é o lorde de peruca no parlamento, é o trem sem
janelas na estação fechada de todos os países. O menino na areia é alemão, é
húngaro, é inglês. E também é argentino, brasileiro e judeu.
O menino na areia vive (e
morre) na periferia de sua atenção, embaixo do tapete, no rodapé do jornal que
não existe mais. O menino na areia é a especulação, a taxa de câmbio, o spread
bancário e o socialista de botequim. O menino na areia é o menino deitado, de
rosto virado para os cegos do outro lado da areia.
Cegos que, ontem,
finalmente, viram o menino na areia.
E viram no livro dos
rostos, que não estavam virados, mas ocupados, entre festas na areia, carros
importados e guerrilhas ideológicas.
Ontem, todos nós vimos o
menino na areia.
Mas o rosto, virado na
areia, não era o do menino na areia.
– Olhe de novo, menino na
areia.
post: Marcelo Ferla

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Deixe sua opinião.